domingo, julho 15, 2007

656.ª etapa


SÓ HÁ UMA MANEIRA DE AJUDAR: ASSINANDO!

Meus caros amigos, antes de mais, peço-vos que tenham um pouco de paciência em relação a mim. A vida é feita de altos e baixos e nem sempre estamos preparados para os baixos…
Assunto deste post:
o novo projecto de lançamento de um Jornal inteiramente dedicado ao Ciclismo.

Na última meia dúzia de anos – mais três, menos quatro - será a quarta tentativa para que os VERDADEIRAMENTE amantes da modalidade possam ter algo onde, de certeza, terão notícias de ciclismo.

Falo do Mundo do Ciclismo (Guita Júnior), da Super Ciclismo (Maria João Gouveia), do Anuário (Fernando Petronilho)… todos morreram, adivinhem porquê…
Porque os adeptos do Ciclismo não corresponderam com essa sua paixão às necessidades mínimas de quem se mete nisto de editar jornais (ou revistas).

Se não houver quem compre… não há dinheiro.

Embora undercover, lá vou lendo o que se escreve no Cyclolusitano - Rui e António, ao fim destes anos todos acho que a situação do Forúm do Cyclolusitano está a chegar ao fundo.

A solução, acho eu, é a de apagar aquilo tudo e recomeçar com registos sérios… um pessoa um nome, nada de nicks…; já há espaços mais do que suficientes para quem quer brincar ao Ciclismo e, por favor, não me deixem morrer o Cyclolusitano – mas dizia eu, aproveitando o Cyclolusitano (o que ainda significa que é o sítio mais reconhecido), o José Carlos Gomes anunciou o lançamento de um novo Jornal.

Eu sei bem como isto se faz… a esta altura a “entrada” de publicidade deve estar, ela por ela, semelhante ao custo de produção do jornal.
O que justifica a opção de o distribuir gratuitamente. É um bom desafio aos patrocinadores e uma inequívoca prova de confiança da parte destes.

Mas vamos lá a ver… perdoem-me, uma vez mais, as minhas comparações meio aparvalhadas.
Se há uma corrida no Minho… o jornal será distribuído gratuitamente no Minho.
Nas localidades por onde passar a corrida.
E o resto do País?
E o resto dos aficionados?, os do Algarve, os do Alentejo, os da Grande Lisboa…

MAS É EVIDENTE que a empresa criada NÃO SE PODE DAR AO LUXO de contratar uma destribuidora, para levar 30… 20 jornais, para Loulé, ou para a Malveira; para o Redondo ou para Montemor-o-Velho… vocês nem sabem quanto isso custa. Levar 20 jornais para Loulé e vender… dois.

Aplaudo aqui, uma vez mais, a coragem dos promotores do Jornal de Ciclismo. E é tão fácil perceber que, distribuição gratuíta à parte, o projecto não sobrevirá sem o apoio EM MASSA dos VERDADEIROS adeptos do Ciclismo que… assinem o jornal.
Caramba! Se somos adeptos da modalidade, se queremos saber notícias… alguém que me explique o porquê da dúvida em assinar o jornal se, ainda por cima, nos irá cair na caixa do correio a um preço quase simbólico?

Leio, noutro sítio na internet, o esgrimir de argumentos entre dois nicks – o que, confesso, me aborrece solenemente. Porque é que não se assumem com os seus próprios nomes? – onde um, aparemtemente, se mostra disponível para assinar o Jornal, provavemente nem o fará, e outro que diz esta coisa indiscritível: “Se é para alguns terem o jornal de borla, eu não vou assinar.”

Vocês todos já perceberam que, mais dia , menos dia, o VeloLuso avançará para uma pégina net, em vez de ser apenas um simples blog. Gente deste calibre, que se diz gostar muito de ciclismo mas não está disponível para ajudar quem arrisca tudo num projecto deste tipo… não terá qualquer hipótes de lá entrar. Nem que seja só eu a escrever.

Aquilo que um dado “Armando” escreveu é ridiculo, abaixo de cachorro vadio.
Até comprava - comprava? Grande mentira!!!! – se o jornal aparecesse nos quiosques. Mas não assina porque assinando vai pagar o mesmo produto quer outros poderão vir a ter de borla.

Não vou esticar mais este artigo.

O José Carlos Gomes tem o seu próprio Blog a partir do qual, com certeza, vai tentar publicitar a nova publicação – Zé, conta comigo, o espaço do VeloLuso está aberto para apoiar a vossa iniciativa, da melhor maneira que puder – mas, como em tudo o resto, os adeptos do ciclismo são, genericamente – o que quer dizer que não estou a apontrar o dedo a ninguém em especial -, como dizer… conhecem a figura do eunuco? É isso.

Até serão capazes de “comer com os olhos”, mas demitem-se automaticamente de qualquer hipótese de uma relação de facto. E as desculpas não pegam.

Vergonha, então, para o tal “Armando”. E para todos os que pensam como ele.
Não teria que o dizer, mas o cheque com o valor da assinatura do novo jornal, em meu nome, já está a caminho de Rio Tinto.

sábado, julho 14, 2007

655.ª etapa


FAZ AMANHÃ 28 ANOS QUE
JOAQUIM AGOSTINHO
VENCEU NO ALPE D'HUEZ

Os grandes heróis da História do Ciclismo fizeram-se nas grandes montanhas, naquelas etapas que, à primeira vista, nenhum ser humano seria capaz de vencer. Porque o fizeram, muitos atingiram o Olimpo. Claro que há outras formas de alcançar a imortalidade. Ganhar cinco vezes o Tour elevou ao estatuto de estrela, primeiro Jacques Anquetil, depois Eddy Merckx, a seguir Bérnard Hinault e ainda Miguel Induráin, antes que Lance Armstrong elevasse a fasquia até às sete vitórias. Consecutivas.

Todos eles aparecem no primeiro patamar num hipotético pódio gigante.
A partir da que ficará chamada era-Induráin - depois reeditada por Lance Armstrong - passámos a ter corredores mecanizados, que se preparavam como máquinas com um único objectivo, e como o conseguiram, desviaram as atenções de muitos outros feitos conseguidos por muitos outros corredores que passaram a ver a sua estrela brilhar menos cintilante e por muito menos tempo porque, lá está, outra estrela bem mais forte acabava por a ofuscar.

Mas as pessoas lembram-se de Marco Pantani, de José Maria Jimenez, de Roberto Heras… de Richard Virenque que, mesmo nunca tendo sido imperial nas grandes montanhas, foi por seis vezes o rei dos trepadores do Tour.
E Gilberto Simoni, que foi o primeiro a vencer o Anglirú?

Ainda há quem se lebre de Chris Boardman, recordista da hora; ninguém esquecerá Mario Cippolini, aquela máquina de ganhar sprints… mas, voltemos às montanhas. É mesmo da rocha da montanha que se esculpem os maiores, os grandes heróis dos adeptos do ciclismo.

E entre todas as grandes montanhas – Anglirú, Mortiloro, Zoncolan, Galabier, Aubisque, Envilara, Lagos de Covadonga, Pajares, Sierra Nevada, Arcalis, Cerler… Estrela, Senhora da Graça – há uma que, só por sí, já é mitológica.
E, claro, quem lá ganha entra directamente para o panteão dos grandes campeões.
É o Alpe d’Huez.
Onde, faz amanhã, precisamente, 28 anos que lá venceu o nosso Joaquim Agostinho.

Leio o texto do António Simões, no livro “Joaquim Agostinho, uma lenda do Centenário”, ed. A BOLA:
“A montanha que nunca mais acaba. Que sobe, em serpente, até ao tecto do Tour, por entre rochas e curvas, sem pinheiros nem abetos, vertiginoso “décor” de teatro – teatro de homens que, mais do que desafiarem-se a si próprios, desafiam todos os deuses, todos os demónios…”

E logo a seguir: “Agostinho já isolado, rosto perlado pelas gotas de suor do desejo de ser primeiro, de ser maior, tronco colado ao quadro da bicicleta, que naquele cenário talvez pesasse mais de uma tonelada, a vontade, o empolgamento a desenrolar-se pela estrada a caminho do céu, para lá dos 1800 metros de altitude…”

E mais à frente: “A vertigem da meta, de imaginá-la, acelerou-lhe o sangue nas veias. E a raça no coração. Agostinho cortou, enfim, o risco branco do sonho. ‘Como se fosse de motorizada’, alguém empolou. Desceu da bicicleta ainda com força para um sorriso. Debruçou-se sobre ela, como se lhe agradecesse a dádiva. O paraíso. E depois foi o tempo da lágrima na recordação da queda da “terça-feira negra” em que quase tudo se ia perdendo – deixando que se pensasse que se não se molhassem os olhos a alma nunca teria arco-iris. Hinault… Zoetmelke… só apareceram três minutos depois. Esmagados pela dor de subir. Olhou para eles com a olímpica complacência de quem talvez não tenha percebido o alcance do eterno momento de glória que acabara de apanhar. Que haveria de perpectuar-se com o nome dele numa das 21 curvas que fazem o mito, que fazem o Alpe d’Huez.”

Ainda mais à frente: “Esbaforido, surgiu a correr um jornalista de uma rádio francesa – que interrompeu o diálogo entre Joaquim Agostinho e Carlos Miranda [jornalista de A BOLA que acompanhou praticamente toda a carreira internacional de Agostinho]. ‘Você hoje ganhou duas etapas: a de Alpe d’Huez e a de ter 36 anos…’.
Agostinho brincou: "Olhe que é mais um, senhor! São 37…”

Isto foi no dia 15 de Julho de 1979.
Faz amanhã 28 anos.
Para perpectuar a sua memória foi colocado, na 14.ª curva um baixo relevo, cuja imagem reproduzo aqui, e não uma “grandiosa estátua”, como li há dias atrás.

Recordo aqui parte da história desta que é uma das míticas etapas, entre todas as que se disputam, por todo o Mundo.
A começar pela vitória de Joaquim Agostinho.


15 de Julho de 1979, 17.ª etapa do Tour
LES MENUIRES-ALPE D'HUEZ, 166.5 km
1. Joaquim Agostinho, 6.12.55 horas
(média : 26.788 km/h)
2. Alban a 1'57"
3. Wellens a 2'45"
4. Laurent a 2'48"
5. Bernaudeau a 3'17"
6. Nilsson a 3'19"
7. Battaglin
8. Hinault
9. Zoetemelk
10. Martin a 3'34"
11. Didier a 4'07"
12. Lubberding a 4'31"
13. Bittinger a 5'27"
14. Deschoenmaecker a 5'36"
15. Van Impe a 5'56"
16. Vallet a 6'06"
17. Martinez a 6'41"
18. Thurau a 6'42"
19. Van der Velde a 6'44"
20. De Carvalho a 7'12"
21. Van Calster a 7'31"
22. Julien a 7'33"
23. Knetemann a 7'35"
24. Galdos a 7'47"
25. Pozzi a 7'50"
26. Criquielion a 7'55"; 27. Schepers a 8'15"; 28. Martens a 8'18"; 29. Kuiper, mt; 30. Maas a 9'11"; 31. Chaumaz a 9'36"; 32. Verlinden a 9'39"; 33. Den Hertog a 9'56"; 34. Parsani a 10'07"; 35. Meslet a 10'32"; 36. Villemiane a 10'42"; 37. Jourdan a 10'57"; 38. Bazzo a 11'03"; 39. Becaas, mt; 40. Seznec a 11'15"; 41. Knudsen a 11'34"; 42. Vanoverschelde, mt: 43; Chassang a 12'04"; 44. Duclos-Lassalle a 12'14"; 45. Bourreau, mt; 46. Michaud, mt; 47. Sanders, mt; 48. Kelly, mt; 49. Vanzo a 12'52"; 50. Mathis a 12'55"; 51. Bossis a 13'03"; 52. Pronk, m.t; 53. Peeters a 13'34"; 54. Pollentier, mt; 55. Santoni a 13'48"; 56. Legeay a 13'52"; 57. Jacobs a 14'17"; 58. Sherwen a 14'37"; 59. Bonnet a 14'41"; 60. Michel, mt; 61. Friou a 14'50"; 62. Demeyer a 14'52"; 63. Devos, mt; 64. Garcia, mt; 65. Alfonsel; mt; 66. Hézard a 15'16"; 67. Borguet a 15'53"; 68. Mijngheer a 16'00"; 69. Mollet a 16'01"; 70. Leali a 16'45"; 71. Teirlinck à 17'34"; 72. Dillen, mt; 73. Le Guilloux à 17'53"; 74. Chalmel, mt; 75. Arbes, mt; 76. Delcroix a 18'11"; 77. R.Pevenage a 18'20"; 78. A. Van Linden a 18'50"; 79. Oliva, mt; 80. Schoenbacher a 19'12"; 81. Lelay a 19'14"; 82. Levavasseur, mt; 83. Gauthier a 19'34"; 84. Mutter a 20'35"; 85. Pescheux a 20'45"; 86. Verschuere, mt; 87. Beucherie, mt; 88. Balbuena, mt; 89. Tesnière a 21'51"; 90. Thévenard a 22'21"; 91. De Cauwer a 22'22"; 92. Gallopin a 23'05"; 93. Bellet a 24'33".

Todos os vencedores no Alpe d’Huez
1952 – Fausto Coppi (Ita) *

1976 – Joop Zoetemelk (Hol)
1977 – Hennie Kuiper (Hol)
1978 – Henni Kuiper Hol)
1979 –
JOAQUIM AGOSTINHO
1979 – Joop Zoetmelke (Hol)
1981 – Peter Winnen (Hol)
1982 – Beat Breu (Sui)
1983 – Peter Winnem (Hol)
1984 – Lucho Herrera (Col)
1986 – Bérnard Hinault (Fra)
1987 – Féderico Échave (Col)
1988 – Stephen Rookes (Hol)
1989 – Gert-Jan Theunisse (Hol)
1990 – Gianni Bugno (Ita)
1991 – Gianni Bugno (Ita)
1992 – Andrew Hampsten (EUA)
1994 – Roberto Conti (Ita)
1995 – Marco Pantani (Ita)
1997 – Marco Pantani
1999 – Giuseppe Guerini (Ita)
2001 – Lance Armstrong (EUA) *
2003 – Iban Mayo (Esp)
2004 – Lance Armstrong (EUA) *
2006 – Frank Schleck (Lux)
(*) – Ganharam também essa edição do Tour.
Não foram muitos!...

Os melhores tempos
a partir do início da subida,
em Le Bourg d’Oisans,
até à meta, 14,4 km depois
1.º, Marco Pantani (Ita/1995), 36.50 minutos
2.º, Marco Pantani (Ita/1994), 36.51 m
3.º, Jan Ullrich (Ale/1997), 36.55 m
4.º, Pedro Delgado (Esp/1987), 37.56 m
5.º, Marco Pantani (Ita/1977), 37.10 m
6.º, Miguel Induráin (Esp/1995), 38.0 m
7.º, Lance Armstrong (EUA/2001), 38.10 m
8.º, Pedro Delgado (Esp/1984), 38.10 m
9.º, Lance Armstrong (EUA/2004), 38.15 m
10.º, Richard Virenque (Fra/1997), 38.20 s

E como se safaram
os portugueses no Alpe d’Huez?

1976 - 7.º, José Martins, a 1.50 m
1977 – 8.º, Joaquim Agostinho, a 8.44 m
1977 - 18.º, Fernando Mendes, a 12.39 m
1977 - 27.º, José Martins, a 18.26 m
1878 - 4.º, Joaquim Agostinho, a 1.34 m
1978 - 22.º, José Martins, a 9.39 m
1979 – 4.º, Joaquim Agostinho, a 1.05 m
1981 – 32.º, Joaquim Agostinho, a 12.54 m
1983 – 19.º, Joaquim Agostinho, a 6.54 m
1984 – 94.º, Marco Chagas, a 20.31 m
1984 – 126.º, Carlos Marta, a 29.21 m
1984 – 130.º, Eduardo Correia, a 30.42 m
1984 – 131.º, Manuel Zeferino, a 31.17 m
1984 – 133.º, José Xavier, a 32.24 m
1987 – 82.º, Acácio da Silva, a 20.40 m
1988 – 115.º, Acácio da Silva, a 29.43 s
1989 – 106.º, Acácio da Silva, a 23.35 m
1990 – 143.º, Acácio da Silva, a 30.00 m
1992 – 81.º, Acácio da Silva, a 30.04 m
1997 – 12.º, Orlando Rodrigues, a 3.30 m
2003 – 36.º, José Azevedo, a 9.29 m
2004 – 4.º, José Azevedo, a 1.45m (*)
2006 – 48.º, José Azevedo, a 7.15 m
(*) – corrida em forma de crono individual

sexta-feira, julho 13, 2007

Comité Olímpico Internacional

Hoje acordei um ligeiramente pessimista. Certas notícias publicadas na imprensa portuguesa esta manhã são capazes de ter ajudado a piorar o caso. Por isso, este é, assim mesmo, um post pessimista, muito pessimista.
Ontem tinha prometido algumas notas sobre um outro caso de doping que marcou os últimos tempos. Mas, como ontem reunia a comissão disciplinar da Federação Austríaca de Esqui (ÖSV), achei por bem esperar para ver. E valeu a pena... sempre me ri mais um bocado. No ciclismo a "Operación Puerto" arrasta-se desde 2006, no esqui de fundo há um caso que vem desde o início de 2002. Cinco anos, dois escândalos olímpicos e muita discussão pública depois, parece ter sido encontrada a solução mágica para (quase) todos os males: uma "bula olímpica"!
E tudo começou de forma mais ou menos inocente... A 24 de Fevereiro de 2002, a 19.a edição dos Jogos Olímpicos de Inverno (Salt Lake City) foi encerrada. Terminada a festa, fizeram-se as malas e cada um voltou para as suas casas. Infelizmente para alguns, confirmou-se o que todos os que viajam regularmente sabem: na pressa de sairmos de casa, de vez em quando, lá acontece esquecermo-nos de algo. E foi exactamente isso que aconteceu a vários elementos da equipa austríaca de esqui de fundo. Os pobres coitados esqueceram-se não de apagar a luz ou de trancar a porta, mas pura e simplesmente de deitar fora o saco do lixo. Chato foi que nesse lixo estavam sacos de sangue vazios e diversos aparelhos médicos. Como castigo por esse esquecimento, os austríacos viram o Comité Olímpico Internacional (COI) abrir uma investigação sobre esse caso, que viria a culminar com o anúncio - a 26 de Maio - da desclassificação de 2 atletas (Marc Mayer e Achim Walcher), por recurso a práticas proibidas (ter-lhes-ia sido tirado sangue que, depois de tratado com, entre outras coisas, raios UV, foi reutilizado) e da suspensão do alemão Volker Müller (alegado inventor do método) e do austríaco Walter Mayer (director desportivo da ÖSV) dos JO de 2006 e 2010. Christian Hoffmann e Michail Botwinow (medalhas de prata e bronze na prova de 30 Km... uma das três ganhas por Mühlegg, que acabou por ter que devolver todas as medalhas, quando também foi apanhado nas malhas do doping), entre outros, não foram sancionados por falta de provas.
Quase um ano depois da investigação do COI (a 12 de Maio de 2003), a Federação Internacional de Esqui (FIS) suspendeu Marc Mayer (que é filho de Walter Mayer) e Achim Walcher por dois anos. Walter Mayer foi irradiado e, em Novembro, avançou com queixas em tribunal contra a FIS e a ÖSV (que o despediu após tomar conhecimento do castigo aplicado pela FIS). Estes processos resultaram no reconhecimento pelo tribunal de Innsbruck (a 23 de Fevereiro de 2004) do seu direito ao exercício das suas funções de treinador da Federação Austríaca, na redução do castigo imposto pela Federação Internacional (para uma pena de 10 anos, decisão tomada a 13 de Feveiro de 2005) e numa indemnização financeira decretada pelo Tribunal de Trabalho de Innsbruck (a 26 de Janeiro de 2006), que ordenou também a redução da pena de suspensão. Uma semana antes do início dos Jogos Olímpicos de Turim - e apesar de estar suspenso até 2010 -, Walter Mayer tornou público que estaria presente nos Jogos... a título particular.
Ao início da noite de 18 de Fevereiro, a polícia italiana levou a cabo buscas nas residências ocupadas por biatletas e esquiadores de fundo austríacos. A busca terá sido autorizada pelo Tribunal de Turim com base em relatórios de inspectores da WADA (que, em Janeiro, teriam encontrado aparelhos médicos destinados a práticas proibidas, durante uma visita surpresa à pensão de Mayer). Dez atletas foram levados até Sestriere para serem submetidos a controlos anti-doping. Walter Mayer conseguiu fugir da polícia e atravessar a fronteira austro-italiana. Ainda nessa noite - e com medo de serem presos ao abrigo da dura lei italiana -, os biatletas Wolfgang Perner e Wolfgang Rottmann (apanhado com frascos que continham Humanalbumin... e que atirou pela janela, quando a polícia entrou no seu quarto, ignorando que também havia Carabinieri do lado de fora...) resolveram abandonar o aldeamento olímpico e regressar a casa. No dia seguinte, a polícia austríaca encontrou Walter Mayer a dormir dentro do seu carro, na região de Kärnten. Ao ser abordado por um agente, Mayer fugiu, mas foi apanhado numa barricada. Acabou preso e condenado pelo Tribunal de Klagenfurt.
No dia 22 de Fevereiro, a ÖSV tornou públicas as suspensões de Emil Hoch (treinador de esqui de fundo) e dos biatletas Perner e Rottmann. Os Comités Olímpicos Austríaco e Internacional criaram comissões de investigação e três dias depois dão a conhecer os resultados dos testes feitos aos atletas austríacos na noite do dia 18: todos negativos. Dois meses e meio mais tarde, a ÖSV suspendeu o esquiador Johannes Eder (devido a infusões proibidas) por um ano.
Nos meses seguintes, ouviu-se de tudo... vindo de todos os lados. E, a certa altura, deu a impressão que se conseguiria deixar cair o assunto no esquecimento. Algumas vozes ainda murmuravam, mas a mui propagandeada crise desportiva numa outra disciplina (o esqui alpino... a jóia da coroa austríaca) absorveu todas as atenções. Até que, em Abril, finda a época de esqui, o COI reapareceu. Sobre este reaparecimento já muito se especulou - há até quem tenha escrito com todas as letras que foi obra dos alemães (numa questão que envolve candidaturas à organização de futuras edições dos JO).
A verdade é que o COI voltou à carga e deliberou a irradiação de seis austríacos. Por entre muitas questões legais e burocráticas (incluindo o recurso de quatro atletas ao TAS, ainda por decidir), cedo ficou claro que a coisa dificilmente ficaria assim. E foi nessa altura que Peter Schröcksnadel deitou tudo a perder...
Para quem não sabe, Peter Schröcksnadel é o presidente da ÖSV (e consta que o melhor presidente que a instituição conheceu desde...) e a ÖSV é a mais organizada, poderosa e rica federação desportiva da Áustria! Nenhuma outra chega sequer perto do prestígio e dos resultados da ÖSV: o "deus do esqui" (Hermann Maier) é austríaco, os melhores treinadores do mundo são austríacos, as melhores equipas são austríacas, as provas mais carismáticas da Taça do Mundo de várias disciplinas têm lugar no país dos Alpes, as melhores marcas de material para esqui são... exacto... são também elas austríacas. É muita coisa junta e, por isso, tudo o que envolve a modalidade toca os austríacos de forma muito peculiar. Sabendo da sua enorme popularidade e do apoio generalizado com que conta, Schröcksnadel acabou por não resistir a sentir-se como o Leonardo DiCaprio numa famosa cena no filme Titanic e, vai daí, subiu ao alto do seu púlpito para anunciar aos quatro ventos que ele é que é o rei do esqui. Os seus súbitos exultaram-no e deixaram-se levar na onda dos que diziam que, afinal, ninguém tinha feito nada de mal e que o COI só estava a perseguir os austríacos de forma tão feroz porque a Áustria é um país pequeno e sem peso internacional. Exemplos disso mesmo não faltavam, a começar pelo ciclismo alemão (isto ainda antes da abertura do confissionário). E o que é que o COI tinha feito em relação ao ciclismo? Pois...
No meio disto tudo, chegou a parecer irrelevante o facto do sr. Schröcksnadel ser não só presidente da dita federação, mas também vice-presidente do Comité Olímpico Austríaco (ÖOC). Parecia, mas não era. E foi por aí que o COI pegou. É que até parece aceitável que um qualquer agente federativo venha dizer que o COI não tem nada que andar por aí a irradiar austríacos, que as penas serão muito mais leves (nalguns casos, inexistentes), que o facto de terem sido encontradas substâncias dopantes debaixo da cama de alguns atletas não indicia que estas lhes pertençam ou que tenham sido por eles utilizadas e que a sua federação não tem nada a ver com a presença de um elemento suspenso em áreas de acesso restrito que lhe estavam reservadas (ah, pois! ainda ninguém conseguiu explicar a presença de Mayer dentro do "quartel-general" austríaco). Mas parece que deixa de o ser no momento em que quem "bota faladura" faz parte de um comité olímpico (sim... esses mesmos que servem para defender e espalhar os valores olímpicos reinstituidos pelo barão Pierre de Coubertain no final do século XIX). E o que é que o COI resolveu fazer? Fácil... mostrar que, afinal, quem manda são eles.
Para demonstrar o seu poder de forma simples e eficaz, o COI fez saber nos idos de Maio que estava a equacionar a suspensão do ÖOC por um período que poderia chegar aos 16 anos. Traduzindo, a Áustria não poderia participar em JO (de Verão e de Inverno) para aí até 2024. Foi o fim do mundo em cuecas!!! Em Viena, clamou-se por piedade. Afinal, questionou-se, que justiça era essa que castigava centenas de inocentes que nada tinham a ver com as ovelhas negras (não seriam vacas?) que pastavam lá pelos glaciares do Tirol? Dias depois, o COI - qual rei piedoso - concedeu uma espécie de "bula dourada olímpica" aos austríacos: eles pagavam (1 milhão de dólares), livravam-se de uma dúzia de indesejados e, em contrapartida, escusavam de cancelar os voos para Pequim. E assim foi: a 29 de Maio, o ÖOC reuniu para assistir à entrega do pedido de demissão de Schröcksnadel do seu cargo de vice-presidente, para irradiar 13 elementos da ÖSV de toda e qualquer presença em JO futuros e para deliberar que a multa seria paga por quem a devia ter evitado - a ÖSV.
Numa qualquer história da Disney, este seria o final feliz por que todos ansiavam. Mas a felicidade eterna só é conhecida nos contos e também não devemos ver nisto o fim. Porque a história está, como todos sabemos, sempre muito longe do final...
Ontem foram anunciados - entre várias anedotas - mais alguns castigos. Existem também ainda algumas decisões judiciais pendentes. Mas o que nós não podemos ignorar é que todo este processo abriu um precedente. Até aqui, o COI tinha sido muito liberal (chegando mesmo a aceitar a participação em JO de países envolvidos em conflitos armados... que isto dos valores olímpicos já deu o que tinha a dar), mas agora assumiu uma posição de força e só lhe restam duas opções: ou faz deste caso uma excepção (correndo o óbvio risco de perder a face e dar azo a mais especulações) ou segue por um caminho perigoso, que o poderá levar a entrar em rota de colisão com alguns dos seus membros mais influentes.
E o meu pessimismo faz-me equacionar um outro cenário, que prefiro considerar impossível. É que a tomada de posição do Governo alemão (ao ameaçar retirar o seu apoio aos Campeonatos do Mundo de Estugarda) e os permanentes escândalos de doping (que deixaram de aparecer como acções individuais de atletas que esporadicamente eram apanhados) não deixa augurar nada de bom. E há tanta gente capaz de vender a alma ao diabo por um lugar no Olimpo...
Por isso, apenas me resta acrescentar um conselho: tenham muito cuidado com o vosso lixo... E, já agora, peço desculpa pela extensão do artigo e pela extensiva referência a uma outra modalidade.

654.ª etapa


SE RECORDAR É VIVER...
ENTÃO ESTOU MAIS VIVO QUE NUNCA

Mais duas etapas da Volta de 1993, mais memórias desenterradas. Mais saudades…

Começo por voltar ainda ao programa de ontem. Passaram-se-me duas referências. A primeira, ao então Campeão Nacional que era o… Raúl Matias, do Carnide; a segunda ao facto de Paulo Couto, hoje o presidente da Associação Portuguesa dos Corredores Profissionais ser, à altura, uma peça fundamental na equipa da Recer-Boavista.

No programa de hoje vimos a chegada a Marco de Canaveses, junto ao Estádio Avelino Ferreira Torres, no largo… Avelino Ferreira Torres que fica ao fundo da Alameda… Avelino Ferreira Torres que cruzava a meio a Avenida… Avelino Ferreira Torres. Chamem-lhe narciso!
Mas era uma boa chegada, que serviu para as duas etapas, a primeira que foi ganha por… Américo Silva, o actual DD da Liberty Seguros, então ao serviço da espanhola Artiach, à frente de um reduzidíssimo grupo de cinco ou seis corredores onde três eram da… Sicasal-Acral: Vítor Gamito, Carlos Pinho e Joaquim Sampaio. Os últimos dois ainda aí andam no pelotão. Pinho foi mesmo líder da Volta a Portugal, na edição do ano passado, 13 anos depois das imagens que vi, e Joaquim Sampaio já leva este ano, se não me trai a memória, três vitórias em etapas. Como o Vinho do Porto… quanto mais velhos melhores.

Em relação a antigos companheiros da CS, hoje vi, de novo, o Zé Nunes, mais o Fernando Emílio, da Rádio Comercial. Se não me engano este foi o ano em que a estação da Sampaio e Pina levou uma super equipa (não só desportiva) e fazia, em directo do local de chegada, todo o programa da tarde que fechava com o Diário da Volta, também em directo, Para além do Fernando e do Zé Nunes, repórteres de estrada, a coordenação era do Rui Almeida. Tinham dois comentadores residentes, o Manuel Graça e o Emídio Pinto, mais um jornalista convidado diariamente. Também lá fui. Foi em Macedo de Cavaleiros. E o Zé Rosa – o motorista de A CAPITAL –, com a melhor das intenções, encostou-se a uma das super gigantes colunas de som e gravou toda a emissão com o meu gravador, que me entregou, orgulhosíssimo, no final do programa.
Tinha, inadvertidamente, gravado tudo em cima… das entrevistas que eu fizera à chegada!!! Acontece…

A segunda etapa mostrada ontem foi o crono Marco-Marco que eu fiz no carro da Sicasal-Acral conduzido pelo grande amigo Manuel Graça. Acompanhámos o Manuel Cunha que fez uma etapa… para o fraquinho.
Mas foi uma experiência e peras.

O traçado era suicida. Começava a subir, depois tinha uma descida louca que terminava num entroncamento com uma estrada… em terra batida, onde virávamos à esquerda. Algumas centenas de metros à frente virávamos de novo à esquerda, para um empedrado que levava ao cimo de uma contagem (3.ª categoria) para o Prémio da Montanha.

À altura faltavam-me ainda referências. Era praticamente um caloiro ainda e hoje não me surpreende o facto, por isso achei curiosíssimo o reparo do Alves Barbosa que questionava exactamente isso: a existência de uma contagem para o Prémio da Montanha num crono.

Ganhou o Joaquim Gomes (Recer-Boavista) com um tempo extraordinário, relegando o seu companheiro de equipa – e vencedor da Volta anterior –, o brasileiro Cássio Freitas para o segundo lugar. O Joaquim ganhou o crono e vestiu a camisola amarela que não mais despiria até à chegada a Lisboa conquistando a sua segunda vitória (depois da de 1986) e de em 1990 ter perdido a liderança no crono final, na Maia, para Fernando Carvalho. Por 23 segundos.

Não vou ser exaustivo no que respeita aos companheiros da CS que vou agora revendo. Vi o Teixeira Correia (pela Rádio Voz da Planície, de Beja).

A memória mais forte que me ficou desta etapa – do crono – foi a indescritível sensação que pude experimentar ao fazer o percurso no carro de apoio da Sicasal-Acral. Conduzido, como já referi, pelo Manuel Graça. Que experiência…
O Manel não é alto, antes pelo contrário, e fez o percurso todo… de pé, para poder ir de cabeça de fora do carro incentivando o Manel Cunha.
Descidas loucas, estradas rurais, estreitíssimas, curvas que se sucediam a curvas, o Manel a conduzir de pé e eu… agarrado com as duas mãos ao assento do carro.

E guardo outra memória. No final da etapa que, saída de Tarouca nos levou até Marco de Canaveses, estalou a guerra – que já vinha quase desde o início da prova, mas mantida em banho-maria – entre a Organização e a então nóvel SIC.

Ter-se-á queixado a RTP (não o posso garantir) que detinha os direitos de transmissão em directo mas que entendia esses direitos alargados à tomada de imagens durante todas as etapas. Os directos eram apenas de cerca de uma hora, ma RTP2. E a Organização decidiu que a equipa de reportagem da SIC ficava proíbida de tomar imagens em movimento. Isto é – e acontecia em muitos casos – ficava equiparada aos jornais que não tinham um fotojornalista numa moto. Era o caso de A CAPITAL, mas não só. Do carro, em andamento, não podíamos tirar fotos. A alternativa? Estudar muito bem o traçado das etapas, cortar caminho e esperar num cruzamento qualquer a passagem dos corredores para poder tirar fotos. Depois? Irmos que nem loucos por percursos alternativos em busca de outro ponto onde pudéssemos parar e tirar mais fotos. E depois, claro, tínhamos a chegada e o pódio.
A SIC, ameaçada de expulsão da corrida, contou com a solidariedade dos jornalistas da escrita – os da rádio não iam à Sala de Imprensa – que nos juntámos, elegemos um porta-voz, o Costa Santos, do Record, e ameaçámos não mandar serviço para os nossos jornais se a SIC fosse expulsa.
Após largos minutos, uma hora, de negociações chegou-se ao tal compromisso. As câmaras da SIC ficavam equiparadas às máquinas fotográficas dos fotojornalistas. Podiam recolher imagens, mas parados. Depois… que fizessem o mesmo que os outros. E havia autênticos ralis por estradas não incluídas no roteiro da Volta, sem trânsito cortado e com todo o risco que isso acarretava, de modo a poder parar ainda em mais algum local.

Memórias que me transportam para há 14 anos atrás… E estou a gostar.

quinta-feira, julho 12, 2007

653.ª etapa


VOLTANDO AO TOUR...

Vai bonita a corrida. Aberta, como seria de esperar. E hoje pudemos ver, várias vezes, o nosso Sérgio Paulinho. Ok, eu também não percebi muito bem o que estaria o Sérgio ali a fazer... mas não saiu de mãos a abanar. Já é 10.º no Prémio da Montanha. Peanuts, dirão os "corredores" de sofá e ar condicionado para quem... os outros têm sempre a obrigação de ganhar. Mas não é bem assim... e depois há a questão da moda. Se ganham... não será porque estavam dopados? Deus lhes perdoe.
Porque há, haverá sempre, detractores. Façamos como aconselha o senhor Dick Pound. Não falemos neles que... eles deixam de existir.

Como é habitual, esta primeira semana foi marcada por várias quedas. Umas com consequências imediatas, outras sem consequências, outras ainda cujas consequências só poderão ser avaliadas um pouco mais à frente.
Ontem não tive oportunidade de escrever nada sobre a etapa. Mas vi-a. Como vi hoje.

Continuam a ser, quase em permanência - o que nos obriga a adiar a vontade de ir... verter águas para o final da transmissão, que na RTPn não há intervalos -, deliciosos, tanto os comentários, como os sempre a propósito àpartes do Marco Chagas, sempre coadjuvado por um João Pedro Mendonça que, se não se tivesse dedicado, com paixão, ao Ciclismo, corria o risco de ganhar um prémio do CNID sendo que estes começam a ser como as comendas do 10 de Junho. A verdadeira élite é composta pelos que vão conseguindo escapar.

Em relação à etapa de hoje, e tal como o Marco, fiquei espantado com a decisão da direcção da corrida em limpar a estrada de modo a que a equipa da Astana pudesse recolocar o Alexandre Vinokourov no pelotão, após uma queda.

Sabemos ambos que há regras que não estão escritas e eu arrisco:

Terá sido porque o Vinokourov foi atirado ao chão por uma moto da Organização?

Eu, por exemplo, já assisti à reposição de um corredor numa posição avançada em relação ao pelotão depois de, quando seguia isolado, ter tomado um caminho que não o da corrida, enganado pelas motos (e carro, e carro) da Organização.

Foi numa Volta a Portugal, ali para os lados de Sintra. O fugitivo era o jovem Pedro Lopes que, numa viragem à esquerda seguiu em frente, atrás das motos dos polícias, mas também da organização que lá tinha um carro.

Era o tempo do quero posso e mando do Serafim Ferreira e o corredor foi metido no carro, este voltou ao percurso da corrida, ultrapassou o pelotão e desapeou o Pedro a uma distância que seria a equivalente àquela que trazia de vantagem quando do engano.
Terá sido por isso?
Só pode!...

Qualquer outra explicação seria tremendamente penalizadora para a Organização.

652.ª etapa


AH POIS É!...
Neste bocadinho, que medeou entre a publicação do meu artigo sobre a velhinha Volta de 2003 e o ter acabado de jantar, chegaram dois mails à minha caixa de correio – há quem meça a audiência do VeloLuso pelo número de respostas aos artigos (*), se calhar, por isso evitam lá postar – revelando um incómodo (para os remetentes – estavam identificados, sim; desta vez estavam) desconhecimento do que o Ciclismo é, e reforço É, porque o Ciclismo não começou no momento em que, simplificada a vida dos que a ela têm acesso, a Internet se vulgarizou.

Como é que o Quintino Rodrigues foi apanhado numa análise anti-doping, deu positivo e acabou a Volta em 10.º lugar?

A minha resposta: porque sofreu uma penalização, em tempo.

Era assim. Em 1993 e daí para trás. Aconteceu o mesmo a muitos dos nossos ídolos.
O Agostinho foi apanhado num controlo, no Tour, e foi penalizado… em tempo.
Mas continuou na prova.

Bem vindos, os recém chegados.
Querem mesmo subir ao púlpito e botar discurso?
Leiam tudo o que puderem e procurem ir ainda um pouco mais além.

Aproveito para recuperar aqui uma passagem do texto que a S.G. deixou.

Um futebolista foi apanhado nas malhas do doping; o clube espadeirou em todos os sentidos, em sua defesa; que se saiba, não deixou de receber o seu ordenado; e, findo o castigo… vai voltar como se nada tivesse acontecido.

E por favor!!! Não me venham dizer que estou a tentar mascarar factos que acontecem no Ciclismo com o que acontece noutras modalidades.
Com essas opiniões posso eu.

Mas que alguém – nem que seja um especialista honoris causa – tenha a coragem de vir assumir que doping, é SÓ
o que acontece no Ciclismo.
O resto... é má vontade da minha parte.
---
(*) - Nos Fóruns é que a pertinência dos temas se pode julgar pelo número de participações. Um Blog é algo pessoal, um diário... e eu até podia inibir todo e qualqer comentário. Mas não temo eventuais não concordâncias com aquilo que não passa da MINHA OPINIÃO.
Agora, e outra vez - e espero que por muito tempo, com a regularidade que ela puder - também da S.G.

Outra nota

Em relação á nota que escrevi no dia 10... já está um bocadinho melhor. Muito melhor.

651.ª etapa


MOMENTOS IMPAGÁVEIS. AI QUE SAUDADES!...

Fiquei a saber que a RTP, no seu Canal Memória – só para quem tem serviço de cabo, infelizmente –, está a passar, todos os dias, logo a seguir à meia-noite e durante duas horas (viva o luxo!!!, mas, acima de tudo, muito obrigado!) etapas de antigas voltas a Portugal em bicicleta.

Claro que montei a tenda. Não só para ver, mas para gravar, embora o velhinho gravador de VHS, de há uns tempos para cá me venha a causar problemas. Sei lá… Afeiçoa-se às cassetes que eu me esqueço de ejectar e depois para tirá-las é um deus nos acuda. Nada que uma chave de fendas não resolva, embora corra o risco de arrumar com ele de vez.

Mas vamos ao que interessa. Ontem passaram duas etapas da Volta de 1993. A terceira que eu acompanhei, ainda para A CAPITAL.

Primeiras imagens… Uma fuga. Do Paulo Correia Silva (Carnide), que hoje é massagista das Selecções. E logo a nostalgia. Começando pelas bicicletas, passando aos carros de apoio, aquelas velhas Peugeot que levavam equipa, bicicletas e o mais que houvesse para levar. Como mudou, até hoje, a frota automóvel das equipas nacionais!!! O do Carnide era conduzido pelo presidente do clube, se me não falha a memória, Augusto Costa que, poucos dias antes da partida da Volta, em Loulé, eu entrevistara… num banco de jardim, em Carnide, frente ao restaurante que era, ao mesmo tempo, sede do clube.

E a transmissão da RTP também me fez sorrir. Não na forma de crítica, mas por recordar as condições que então haviam à disposição. Eu próprio ainda levava, não um computador portátil mas uma velhinha máquina de escrever. E resmas de papel, claro.
Pré-história. Digo eu, e em relação ao “meu tempo”.

O curioso é que, até que a fuga foi anulada, o Paulo C. Silva teve exclusividade. Imagens do pelotão… só quando chegou junto às moto-reportagem. Nem mesmo o helicóptero descaía um pouco à procura do grosso da coluna!
O pivot era o Miguel Barroso e os comentários do Alves Barbosa, que o Marco Chagas, nessa altura ainda vinha lá atrás, no primeiro carro da Sicasal, equipa de que era director-desportivo.

Quando o pelotão chegou à frente, a comandá-lo lá vinha o carro do Serafim Ferreira, que nunca abdicou daquela posição – irregular e que chegou a constar nos relatórios do presidente do Colégio de Comissários exactamente como isso, uma irregularidade.

Ao volante, o meu caro Márcio Santos.

A reportagem-moto era feita pelo Pedro Figueiredo (que será feito dele?, vou repetir isto muitas vezes), as reportagens na partida pela Lena Sousa e Silva – que ainda vou vendo, de quando em vez na RTP – ela que foi a segunda mulher jornalista na Volta, substituindo a saudosa Pilar de Carvalho, a pioneira, que morrera dois anos antes, aos 31 anos, com um cancro.

E que melhor maneira para começar do que assistindo a um dos duelos históricos do nosso ciclismo? A etapa terminou ao sprint e, claro, lá estavam o Paulo Pinto (W52-Quintanilha) e o Pedro Silva (Sicasal) que desta vez levou a melhor. A chegada foi em Castelo Branco.

E ver o Carlos Pereira, actual (há vários anos) DD da Barbot, a puxar na cabeça do pelotão com as cores do Bom Petisco-Tavira? E o Américo Silva (Artiach) a lançar o sprint? Acabou na terceira posição.

Depois, as indescritíveis chegadas. Vi passar a moto da Rádio Comercial e, estou quase certo, era o Zé Nunes, o jornalista-móvel.
Mal os corredores passavam a meta, e ainda antes de os jornalistas lá chegarem já estavam rodeados por dezenas de pessoas. Gente que não tinha que estar ali, que complicava o nosso trabalho, presença contra a qual protestávamos, ano após ano mas sem nunca conseguirmos ser atendidos…
O boom das rádios locais. Dez, doze gravadores – ainda eram daqueles “tijolos” – e microfones que escondiam a cara do corredor, ante o desespero do Pedro Figueiredo que ia distribuindo sapatadas para os afastar.

Mas eu ficava a olhar as imagens, à procura de caras conhecidas. Daquele tempo. O Valdemar Afonso, da Lusa (que será feito dele?), o Carlos Ferro, do Diário de Notícias (ainda lá está mas deixou-se de ciclismos), o meu querido Boaventura Bonzinho, que fez a desfeita de nos ter deixado, já este ano...

Frente ao pódio, para tirar as fotos, ainda reconheci o “meu” Filipe Guerra, fotojornalista d’A CAPITAL que me acompanhava, o António Cotrim, da Lusa… Não conseguia identificar todos. Entre a malta das locais, o Sousa Casimiro (Rádio Portalegre), o Nélson Silva Lopes (Rádio Íris)…

De passagem, por trás de toda a gente, reconheci o António Ribeiro, motorista da Agros (caravana publicitária), primeiro, do Martins Morim (A BOLA) depois. Morreria poucos anos depois, quando, com um grupo de amigos jogava futebol num daqueles jogos de solteiros contra casados. Era um bom amigo. Companheiro de muitos jantares, comigo, o seu colega, no furgão da Agros – que distribuía iogurtes as pessoas que estavam na estrada, à espera da corrida –, o Zé Rosa (motorista d’A CAPITAL, almoçámos há alguns meses, está bem, felizmente), o Carlos Alberto ou o Filipe Guerra, os fotojornalistas que me acompanharam.

A Agros patrocinava a camisola da Juventude. Camisola Laranja, que era envergada pelo Quintino Rodrigues, vencedor, em 1992 e 1993 no alto da Senhora da Graça, embora no primeiro ano tenha sido desclassificado por controlo positivo e… relegado para a décima posição. Eram diferentes os regulamentos.

A segunda etapa da noite terminou em Tondela depois de ter passado a serra da Estrela por Manteigas e pelas Penhas Douradas. Ganhou um jovem espanhol da… Kelme. Ao sprint, num pequeno grupo de corredores que apareceu destacado.

As camisolas que iam sendo vestidas aos líderes. Peter Petrov (Bom Petisco-Tavira), a dos pontos quentes; Quintino Rodrigues (Imporbor-Feirense), a da juventude… já lá estavam, no pódio, o vencedor da etapa e o camisola amarela, que era o colombiano Luís Espinosa (Artiach) mas faltavam os líderes dos pontos e das metas volantes. Paulo Pinto tinha-se atrasado na serra, chegou já com a cerimónia a decorrer mas o Stantcho Stanchev (Bom Petisco-Tavira) levou ainda mais tempo a passar a serra (devia pesar para aí uns 80 quilos) e foi cortar a meta e subir para o pódio. Era o líder das Metas Volantes.
O líder da montanha, roubando a camisola azul ao Joaquim Gomes (Recer-Boavista) era outro colombiano, o José Diaz Reyes (W52-Quintanilha), um corredor simpático, sempre disponível para falar com os jornalistas. E um excelente trepador. Morreu dois ou três anos depois, baleado em plena via pública, em Bogotá. Falou-se, na altura, de ajustes de contas entre cartéis rivais do mundo da droga.

Foram duas horas de êxtase puro.
Esta noite vou ver outra vez.
Se puderem… vejam. Os menos jovens porque desfilam ali milhares de recordações, algumas que já tínhamos arrumado no arquivo morto das nossas memórias, os mais jovens para verem como tudo era tão diferente.

650.ª etapa


DE ARREPIAR...

É uma das mais negras efemérides da História do Ciclismo mundial e, confesso, passar-me-ia despercebida não fosse a preciosa ajuda do serviço de clipping que subscrevo. A notícia é do AS e assinada pelo Juamma Trueba.

Passam amanhã 40 anos sobre a morte do britânico Tom Simpson, a poucos quilómetros do cimo do Mont Ventoux. Causa da morte: para além do infernal calor que fustigou todo o pelotão, o indiscriminado recurso às anfetaminas.

A crónica de Trueba, de tão real e descritiva chega a arrepiar.
Aconteceu a 13 de Julho de 1967 (6+7=13), na 13.ª etapa do Tour.
Por acaso foi uma 5.ª feira.

Simpson, que tinha 29 anos, fora campeão do Mundo dois anos antes, em 1961 já havia andado de amarelo no Tour e, entre as suas principais vitórias contam-se a Volta à Flandres (61), Milão-San Remo (64) e Paris-Nice, nesse mesmo ano de 1967.
Era uma das grandes figuras do pelotão de então.

Vítima de problemas gástricos, uns dias antes, Tom Simpson não estava nas melhores condições e ainda no primeiro terço da subida final descolou dos da frente. O jornalista do AS recupera algumas passagens de um livro que perpetua a história do corredor britânico.

Depois de ter ficado para trás, viram-no a pedalar descompassado, zig-zagueando na estrada, olhos fixos em ponto algum, até que a dois quilómetros da meta… caiu. O seu mecânico de confiança disse-lhe que estava arrumado, acabava ali a sua corrida, mas ele insistiu e pediu que o recolocassem na bicicleta. Voltou a cair mais à frente. Voltou a montar a bicicleta e, ajudado, tentou voltar a pedalar. E ficam as palavras do seu mecânico: «Quando pela última vez o segurei, ao retirar a minha mão não pude deixar de sentir uma estranha sensação e pensei no rigor mortis. Hoje sei que o Tom morreu em cima da bicicleta. Tentámos tudo, respiração boca-a-boca... depois chegaram os médicos, mas tudo foi infrutífero. A cara do Tom estava cor de cera. Sem um pingo de suor…»

649.ª etapa


MAS NÃO SE PODE DEMITI-LO?

O que vos venho propor é um mero exercício de… “faz-de-conta”.

Faz-de-conta que o ministro da Administração Interna, responsável máximo pelas polícias, quem pode ordenar à estrutura hierárquica – estruturalmente sob a sua alçada directa – que investigue, indicie, prenda e entregue ao Ministério Público toda a gente que cometa actos ilícitos, aproveita uma entrevista para dizer este… “faz-de-conta”:

- Os media, e principalmente as televisões, também deviam fazer as suas investigações e, mais importante ainda, abster-se de dar cobertura a todo e qualquer evento onde se possam encontrar presumíveis implicados em seja lá o que fôr.

Faz-de-conta que, numa visita do PR ou de qualquer elemento do Governo a seja que evento for… é passível que, nas imagens - nem que seja aquele senhor lá ao fundo, de fato castanho, que se “esqueceu” de declarar meia dúzia de itenzinhos no IRS, ou que ainda não pagou o IRC, quiçá… até tem dívidas para com a Segurança Social - possam aparecer... batoteiros. Logo, as televisões deviam desligar as câmaras, os jornais absterem-se de noticiar a visita, as rádios calarem-se.
Não se via “aquele” senhor, nem muitos outros que, não sabemos mas que não estamos seguros que tenham cumprido com todos os seus deveres para com a Sociedade.

Qualquer coisa do género: se não os virmos, deixam de existir. Se não existem, para quê as polícias e, escalando na tal hierarquia, o Governo, se há-de preocupar em procurar provar que são incumpridores e, provando-o, castigá-los na devida proporção do seu ilícito.

Faz-de-conta que isto acontece!

Pois. É que aconteceu mesmo.
Noutro enquadramento, claro, mas comecei com aquela estória inverosímil para carregar o anedótico – para não falar no mau gosto – das declarações do senhor Dick Pound. O chefe máximo da Agência Mundial Anti-dopagem.

De cofres cheios, com dinheiros que vão das contribuições dos vários Estados, via respectivos departamentos nacionais que têm como função a prevenção e luta em relação ao flagelo que é o doping, mais o dinheiro que, no Ciclismo, por exemplo, equipas e corredores são obrigados a… doar para o mesmo efeito o, digamos, chefe-supremo da Polícia Mundial contra o Doping veio defender que o que fazia falta era que as televisões ignorassem – neste caso, o Tour – para não patrocinarem um evento, cito: “Não desportivo mas farmacológico.”
Lá está… se os media não mostrassem, não falassem, o mal deixava de estar exposto, não se via logo… não existia.

Já tardava, mas chegou. A proverbial tese de que a “culpa é da CS”.
Nem mais.

E se a AMA fizesse, de preferência bem feito, o seu trabalho?
Se, em tempo útil, desmascarasse – mas de facto, sem deixar margem para dúvidas – os prevaricadores livrando o grosso do pelotão de uma suspeita que, tal como as coisas estão, cai sobre toda a gente? Não foi para isso que foi criada?

Por estas declarações o senhor Dick Pound já ganhara, se as coisas fossem como noutros tempos, um bonito par de Orelhas de Burro e passava o resto da aula sozinho, a um canto, virado para a parede.

Mas como – e é um fenómeno ainda não cientificamente explicado – quando se diz uma asneira, é normal que outras se lhe sigam em passo de marcha, o tal de Pound acrescentou uma das barbaridades mais barbudas que já tive oportunidade de ler.

Foi, mais ou menos isto: “Os controlos actualmente são frouxos. Fazem-se controlos às seis da manhã, as etapas começam ao meio dias, logo, os corredores ainda têm seis horas para se doparem à vontade.”

Com esta não se livrava de uma boa dúzia de palmatoadas. Se não começasse a choramingar, porque senão dobrava-se o castigo.
Pô-lo a subir o Alpe d’Huez numa bicicleta sem mudanças também seria um castigo giro.

Mas não se pode demiti-lo?

Nota

BEM VINDA!...

Antes de mais... bem vinda de regresso a este espaço.
Não és apenas a "lufada de ar fresco" que ele já estava a precisar, mas podes também ajudar a que ele resista, já que me sinto cansado, desmotivado, desiludido com algumas coisas... Ainda bem que regressaste. Agora.

Li, deliciado, o teu artigo.
(Perdoem-me a imodéstia mas, mais uma vez, não me enganei a respeito das potencialidades de alguém em quem depressa percebi grandes qualidades. Na escrita e, principalmente, na clareza que nela põe.)

E, mesmo sem termos trocado qualquer opinião, assim, expontanemente, volta a funcionar a principal razão que me levou um dia a convidar-te.

À emotividade que, não raro, deixo de controlar e passa, toda, para os meus escritos, contrapõem-se a tua frieza [no melhor dos sentidos] de apreciação sem que a tua fina ironia [como gosto] e a coragem em te abalançares por terrenos que muitos evitam saiam minimamente diminuídos.

Mais uma vez... bom regresso.

Diferenças

Nos últimos tempos, tem sido (quase) impossível falar de ciclismo sem mencionar o famigerado doping. Já por diversas vezes e em vários espaços de debate manifestei a minha opinião sobre este fenómeno - não me parece agora oportuno estar aqui a repetir os mesmos argumentos. No entanto, permitam-me algumas notas que me parecem interessantes: primeiro (e nesta mensagem), sobre as diferentes atitutes face a esta problemática e, posteriormente, sobre o outro grande processo que marcou os últimos meses.

Já muita gente está mais do que farta de ouvir sempre os mesmos a - de cada vez que surge mais um caso de doping no ciclismo - argumentarem que as outras modalidades estão tão ou mais sujas do que o ciclismo, só que são menos controladas. Se, por um lado, é verdade que as infracções dos outros não são desculpa para os males próprios, por outro lado, não podemos negar que existem inúmeras diferenças na abordagem a este tema. Já quase todas aqui foram mencionadas pelo Madeira. Permitam-me agora uma espécie de síntese de algumas que se me afiguram importantes. E isto não quer dizer que uma das práticas seja melhor do que as outras ou que eu procure defender um dos lados - são apenas formas diferentes de encarar publicamente as mesmas situações e são unicamente essas diferenças que aqui são apontadas:

- salvo as devidas excepções, quando um atleta é apanhado nas malhas do doping é ele que acarta com quase todas as consequências: apesar de todos saberem que o mais lógico é haver outros envolvidos (médicos/fisioterapeutas/massagistas, treinadores, dirigentes, colegas e, em última análise, fornecedores), a maioria dos atletas optam por não denunciar nada nem ninguém. São suspensos, podem eventualmente perder patrocínios pessoais, mas continuam a proteger o resto da "rede". Isto é comum a quase todas as modalidades, mas com uma nuance no ciclismo: assim que se tornam suspeitos, os ciclistas são suspensos e, posteriormente, despedidos. As equipas afastam-se de imediato e procuram passar a mensagem de que não têm rigorosamente nada a ver com o caso, que tudo não passou de uma acção individual que eles repugnam. Em quantas outras modalidades se passará o mesmo? Um bom exemplo: termina agora o castigo imposto ao futebolista Nuno Assis, que já veio dizer que quer esquecer o que se passou e que foi prontamente reintegrado na sua equipa - tinha um contracto e continuou a ter. Ou seja, o Nuno Assis tem uma boa razão para ficar calado: o patrão paga-lhe um bom ordenado e, cumprido o castigo, devolve-lhe o seu posto de trabalho. Pode não ser ético nem justo, mas é - sem dúvida - um bom negócio para as duas partes!

- quanto é conhecido um resultado não-negativo, qualquer atleta tem direito a pedir uma contra-análise e a tentar provar (e aqui chega a valer mesmo quase tudo...) que é inocente.
Ora assim de repente (e assumindo que existem outros exemplos semelhantes), só me estou a lembrar de um atleta que prescindiu da contra-análise: Jan Ullrich, em 2002. O alemão percebeu que, naquele caso, só tinha a ganhar em assumir o seu erro: arranjou uma história que, apesar de algo mal explicada, era suficientemente credível e foi tão convincente que até lhe deu direito ao impensável - continuar integrado na equipa olímpica alemã. A sua popularidade não foi afectada, os patrocínios regressaram após cumprida a suspensão e até foi apresentado mais como vítima do que como infractor, ao mesmo tempo que garantia um castigo (6 meses de suspensão convertidos em 8 de calendário) que - bem feitas as contas e recordando que a lesão que o afectava não lhe permitia, de qualquer forma, competir - acabou por apenas o afectar durante um mês... Mas isto foi a excepção, porque a regra é bem diferente!
Por regra, os atletas pedem sempre a contra-análise e procuram, pelas vias mais diversas, convencer tudo e todos de que estão inocentes. E, também aqui, as coisas se passam de forma diferente no ciclismo. Um ciclista com um controlo não-negativo é suspenso pela sua equipa e, se esse controlo se vier a revelar positivo, despedido. A partir daqui fica por sua conta e risco: é ele que dá a cara e que tem que aparecer com possíveis justificações e atenuantes (com a eventual colaboração de advogados ou outras figuras). Em muitas outras modalidades, é aos próprios médicos da equipa que compete a tarefa de justificar o (por norma) injustificável e de sair em defesa do seu atleta. É até comum verem-se presidentes de clubes ao lado dos infractores a garantirem que é tudo uma cabala. Já para não falar nos treinadores, que lamentam sempre a situação, nunca percebem o que é que se passa e acham sempre as circunstâncias muito estranhas. Tudo é suspeito... tudo menos o seu atleta e os seus métodos.
Chegados a este ponto, eu tenho que confessar que me chego a divertir à brava à custa de algumas declarações feitas durante estes processos. É feio, eu sei. Mas é muito mais forte do que eu... Lembram-se da história do champô? Há de facto gente com muita imaginação e, aqui, vale mesmo quase tudo. E, claro, quando aparece muita gente junta a defender o mesmo, a "coisa" torna-se mais fácil, não é?

- mas há mais uma entidade que, em cada modalidade, também acaba por estar envolvida, por força do seu papel governador: a respectiva Federação (a nacional e a internacional). E é aqui que se chegam a ver as maiores discrepâncias. Entre os que calam (durante bastante tempo eu cheguei mesmo a pensar que um qualquer decreto divino tivesse extinguido a Federação Internacional de Esqui) e os que procuram calar (há um presidente de uma outra federação internacional que já afirmou mais ou menos publicamente que prefere que não se refiram os nomes de quem teve controlos anti-doping positivos), a UCI é provavelmente a que aparece como mais agressiva (independentemente de, por vezes, parecer perder o controlo sobre si mesma). Aliás, acho que seria interessante se alguém contabilizasse em quantos casos outras (e quais) federações defenderam o agravamento de penas a infractores (e não apenas atletas).

- no entanto, são mesmo eles (os atletas) quem está sempre no centro das atenções. Também por isso, este ponto servirá apenas para deixar uma nota algo curiosa. Os ciclistas, por via de tudo aquilo por que têm passado, manifestam-se de vez em quanto contra o tipo de controlo a que são sujeitos e a forma como estes são conduzidos. Não estão aqui em causa a justiça de muitas dessas queixas ou as atitudes que levaram à radicalização. Eu apenas referi que eles se queixam a propósito devido a uma outra queixa feita recentemente por um piloto de Fórmula 1: Mark Webber (que até é director da Associação de Pilotos de GP) defende que devem ser feitos muito mais controlos.
O que actualmente se passa na F1 é que apenas alguns pilotos são controlados em corridas específicas. Por norma, sempre nos mesmos GP (em França, p.e.). Ninguém parece ter grande interesse no tema e a FIA até acha que a "coisa" sai demasiado cara (num desporto em que, tal como o australiano referiu, se gastam milhões na procura de décimos de segundo em tudo quanto é lado) para ser feita de forma regular (o pedido do Webber foi no sentido dos controlos serem realizados em todas as provas). Esta é provavelmente a única modalidade que não tem uma política de controlo anti-doping regular. A maioria dos pilotos não vê grande utilidade no uso de substâncias dopantes (Michael Schumacher afirmou uma vez que achava que era preciso ser-se muito louco para se sentar ao volante de um F1 sobre a influência de drogas) e doping em desporto automóvel é normalmente associado a drogas mais "convencionais" (álcool, canabis, marijuana, etc.) e restringe-se à competição (excluindo, assim, testes colectivos ou privados ou outras actividades). Isto apesar de os pilotos de Fórmula 1 serem, sem dúvidas, dos atletas fisicamente mais bem preparados (a forma como atingem a necessária condição física não parece preocupar ninguém) e de, nos já mais de 50 anos que a modalidade leva, ter havido pelo menos três pilotos com controlos positivos.
Mas o mais curioso no meio disto tudo - e era aqui que eu queria chegar - é que o Webbo falou de forma tão determinada (por vezes, chega quase a soar algo agressivo) que, noutras modalidades, toda a gente teria suspeitado que ele queria dizer qualquer coisa mais... Mas não disse e o assunto já voltou a morrer. Todos sabemos como teria sido no ciclismo, não é?

- por outro lado, o resto da comunidade desportiva também não tem o hábito de falar tão alto sobre os produtos proibidos (incluindo explicações exaustivas sobre efeitos, tratamentos, combinações com outras substâncias, vantagens e desvantagens e até informações técnicas). É sempre mais fácil descobrir algo de que já se ouviu falar. Mas, também, é mais fácil falar quando se tem muito mais conhecimentos sobre a matéria (como é, inegavelmente, o caso dos ciclistas) do que quando apenas se aceita o que o médico diz. Em muitas modalidades, os infractores murmuram, no ciclismo, gritam...
E nem sempre em privado. Assim de repente, lembrei-me de um caso que eu nunca fui capaz de entender em toda a sua extensão: há um ciclista profissional (acho que ainda o é...) que, em tempos, costumava frequentar uma sala de chat. Num dos campos associados ao seu nick (e que estava disponível a todos quantos o quisessem ler), tinha o nome de uma substância proibida! E ele assumia com orgulho a sua identidade perante os jovens dos escalões de formação que paravam por lá. Deve ser a isto que chamam "ser um bom exemplo"... Mas o que me custou mais a entender não foi isso (que, para mim, já era suficientemente estúpido! Apetece-me dizer que quase ao nível do livro escrito pelo O.J. Simpson...). O que verdadeiramente me fez confusão foi ver a mesma pessoa, num outro espaço, a insurgir-se contra suspeitas de utilização de substâncias proibidas no ciclismo e a atacar quem pudesse sequer insinuar que o doping é uma realidade. É uma atitude, no mínimo, curiosa, mas que não é caso único. Também neste aspecto, as coisas se passam de maneira muito peculiar no mundo do ciclismo.

- uma outra questão dentro deste tema tem sido o acompanhamento dos atletas desde o momento em que lhes é dado conhecimento de que terão que se submeter a um controlo anti-doping e a chegada ao local do controlo. Nas outras modalidades (mesmo naquelas em que, tal como no ciclismo, muita gente sabe de antemão que terá que o fazer), desde o momento em que oficialmente são notificados (e em que assinam uma declaração em como efectivamente foram avisados, que inclui o tempo limite que têm para se apresentar no local do controlo), os atletas são sempre acompanhados por um escolta. Este elemento vai atrás do atleta para todo o lado (e é mesmo para todo o lado, casas de banho incluídas) e, caso observe algo de suspeito, reportará todas as ocorrências que julge relevantes ao responsável pelo controlo. O atleta é livre de passear por onde quiser e falar com quem entender. Sabe, no entanto, que todas as suas acções são observadas - se ingerir algo (seja líquido ou sólido), se receber algo do treinador ou do médico, se procurar preparar qualquer forma de iludir o controlador, sabe que corre o sério risco de ser denunciado: pode tentar à mesma, mas é mais ligeiramente mais difícil... E igual procedimento é tomado caso o atleta necessite de abandonar o local do controlo antes deste ser dado por terminado: o mesmo escolta segui-lo-á, nem que seja só até ao lado de fora da porta.
No ciclismo - e ainda hoje vem mais uma referência a isso em alguns jornais -, é uma verdadeira "feira": cada um faz o que quer, quando e onde quer e ninguém liga. Desde que aparecem para o controlo, ninguém se preocupa em saber se terão andado a fazer algo menos lícito, desde que cortaram a meta até que se apresentaram no local do controlo. É estranho, mas...

- para terminar (que isto já vai excessivamente longo), uma referência a quem sustenta o desporto profissional: o público. Creio que já ficou mais do que claro que o "grande público" está mais interessado em que se fale publicamente das coisa do que com as questões médicas e éticas. Nos EUA, várias ligas profissionais assumem a utilização de substâncias para melhorar o rendimento dos atletas. Não lhes falta público. (Faço aqui um pequeno aparte para mencionar o caso de um jogador de basebol que tem sido alvo das críticas do público por estar à beira de bater um recorde antigo. Dizem os adeptos que é injusto, porque ele tem acesso a substâncias a que o ainda detentor da marca em causa não teria. Está mal, reclamam os americanos. Mas só está mal o ele bater o recorde com a ajuda assumida de "drogas", já que consta que todos os protestos se têm centrado unica e exclusivamente nesse atleta.) Nem mesmo quando os atletas que competem nessa liga se vêem impedidos de participar nos Jogos Olímpicos. Eles assumem o que fazem e evitam assim que se passe metade da época a falar de batota e batoteiros: são-no todos, com muito orgulho.
Na Europa, as coisas são ligeiramente diferentes, mas não muito. E isso ficou claro ainda há umas semanas, após a confissão do Erik Zabel. Sejamos honestos - e eu nunca escondi que ele até é um dos meus corredores preferidos -, o Zabel só confessou o que já era (e porque era) público. Não tivesse um antigo massagista seu escrito que ele tinha experimentado EPO uma vez (e nesse livro até estará escrito que ele é dos corredores mais "limpos" da sua geração) e nunca ninguém o veria vir a público confessar que tinha utlizado EPO. Depois disso, a sua equipa hesitou em deixá-lo participar na Volta a Baviera: temiam os responsáveis da Milram que o pouco tempo que havia entre o dia da confissão e o início da prova pudesse dar azo à indignação dos adeptos. Pois, nada de mais errado... Não só o público bávaro não se manifestou contra a continuidade de Zabel como ciclista profissional, como ainda o recebeu como um verdadeiro herói. Ele já era o corredor mais popular na Alemanha, mas a verdade é que o apoio dos adeptos durante essa prova foi maior do que se poderia imaginar. Quem não o tivesse visto a chorar na conferência de imprensa, pensaria por certo que o homem tinha... sei lá... ganho a Volta a França... É que os alemães estão-se a marimbar para o facto de ele ter usado EPO. Usou, mas já assumiu que não devia. E a teoria de que o público se sente enganado de cada vez que alguém é apanhado nas malhas do doping não parece muito aplicável ali pela Alemanha. Aparentemente, eles assumem que todos se dopam, só que uns mais do que os outros. E o que não tem mesmo perdam é mentir. Aliás, já muito boa gente percebeu que se o Ullrich tivesse vindo a público contar algo (nem era preciso ser tudo...) não só não sofreria grandes consequências (ele já acabou a sua carreira, por isso...), como teria sido desculpado pelos alemães, que se voltariam a referir a ele como a maior vítima nacional do sistema instalado no ciclismo (ainda por cima, com tanta gente a confirmar que, mesmo sem doping, ele era o melhor...).
É... o "grande público" é mesmo um "bicho" complicado que se deixa reger mais facilmente pela emoção do que pela razão... E, se ele apoia um atleta ou uma modalidade, os patrocinadores (que se inserem mais na classe dos "bichos oportunistas") também apoiam...

quarta-feira, julho 11, 2007

648.ª etapa


SÓ FALTAVA MAIS ESTA!...

Quando pensamos que já vimos/lemos tudo, eis senão que, de quando em vez, lá surge mais uma surpresa. Algo que nem sequer imagináramos.
Quando o Ciclismo atravessa uma das suas piores crises, quando toda a gente já franze o nariz só de ouvir falar em Corredores, quando são, mais ou menos abertamente catalogados como… batoteiros, drogados… para não ir mais longe, só faltava mesmo mais esta.

Sinceramente não sei se, em notícias do género é costume dizer-se/escrever-se que o fulano é pedreiro, carteiro, vendedor de seguros, engenheiro ou advogado mas, tendo em conta exactamente o momento que o Ciclismo vive, aparecer um título assim era já só o que faltava.
Li-o no sítio da ATBnotícias (
www.atbnoticias.es), assim, cruamente, como se segue:



El miembro de ETA detenido en Santander era ciclista
y compitió hasta 2005 con la Federación Vasca de Ciclismo


BILBAO, 10 (ATB NOTICIAS) - El presunto miembro de ETA detenido a primera hora de esta tarde en Santander, Aritz Arginzoniz Zubiarre, era ciclista, había competido tanto en montaña como en carretera con la Federación Vasca de Euskadi de Ciclismo hasta 2005 y llegó, incluso, a participar en varios campeonatos de España de ciclo cross.


Según informaron a Europa Press fuentes de la Federación, Arginzoniz, pasó sus últimos tiempos como ciclista en el equipo guipuzcoano Debabarrena, tras pasar por los juveniles de Elorrio y Ermua, donde comenzó como cadete.

E lembrei-me de uma sequência de notícias breves que li há cerca de um ano, e que aqui comentei. Recordo-o:
Eram três breves consecutivas.
A primeira tinha como título DOPING-1, e falava de um caso de doping numa qualquer modalidade de que já não me lembro;
A segunda tinha como título DOPING-2, e fala de um outro caso de doping, numa outra qualquer modalidade de que já não me lembro;
E a terceira tinha como título CICLISMO. E falava de um caso de doping… no Ciclismo.

Chocou-me a associação primária do nome da modalidade, DESTA modalidade, ao fenómeno do doping, tanto que foi preferida ao lógico… DOPING-3.

terça-feira, julho 10, 2007

647.ª etapa


NÃO!... NÃO E NÃO!
ÀS FOGUEIRAS DE UMA NOVA INQUISIÇÃO

Roberto Heras, o espanhol que mais adeptos arregimentou para o ciclismo espanhol - depois da saída de cena de Miguel Induráin - está a terminar o seu castigo de dois anos e já se sabe que tem um convite (ou mais do que isso?) da Relax-GAM para que seja corredor da equipa madrilista na próxima temporada.

A primeira reacção que ouvi, a este respeito, foi a típica dos... que se acham puros.

"O quê? Depois de Mancebo, Sevilla, Santi Perez e companhia... ainda mais o Heras?"

Que raio! Então, mesmo que apanhados, logo... condenados e cumpridas as penas, aos Corredores não se lhes pode dar uma segunda oportunidade?
Mas por que raio?
É uma sociedade sem valores, esta em que vivemos.

Mas o que mais custa aceitar é que, quando cada vez mais... há menos gente que não tenha (pelo menos) tentado enganar... sei lá, o Fisco é um bom exemplo, com "prestações de serviços" seja a recibos verdes, seja - com a ajuda de um ou dois bons amigos - com pagamentos "por baixo da mesa" se arvore em juiz e clame, para além da pena que, quem caiu em erro já pagou, com a tentativa de "varrer" definitivamente quem errou e pagou.
A Relax-GAM foi considerada "non grata" pela organização da Vuelta.
Tinham que escolher e a oferta era menor que a procura.
Não me chocou a escolha.

Mas aplaudo a decisão - aliás já tomada o ano passado, em relação à Comunitat Valenciana - da organização da Volta a Portugal ao convidar, ou ao ter aceite a candidatura da Relax.
A PAD/João Lagos Sports está a dar uma lição aos demais organizadores.
E eu fico extremamente contente com isso.

Não somos todos juízes, como muitos gostariam que fossemos.
Nem temos todos, à mão, a permissa de julgar terceiros.

A Comunitat Valenciana - que por acaso até ganhou a Volta - apresentava-se... marcada?
A Relax é olhade de soslaio só porque se está a apresentar como única tábua de salvação para bons profissionais - eu repito, para os que têm alguma dificuldade em enteder: BONS PROFISSIONAIS (o que significa que puseram os interesses das suas equipas à frente dos seus próprios interesses, ou acham que o Heras tomou... o que quer que tenha tomado, à revelia do senhor Manolo Sáiz, que é como quem diz, à revelia da estrutura da equipa? -, se calhar... por sacristãos que presumem saber mais da missa que o cura da aldeia!

E se saio na frente, porque ainda não li nada sobre isto, e em defesa da Relax, que nos proporciona ter, por exemplo, o Paco Mancebo, quem sabe... o Oscar Sevilla na Volta a Portugal, é porque acho (aliás, todos sabem isso...) primeiro, se não foram ainda condenados são obrigatoriamente inocentes... Se já o foram e cumpriram a sua pena... quem é que se julga capaz de negar uma segunda oportunidade a quem quer que seja?

646.ª etapa


CLARO QUE FOI UMA DEMONSTRAÇÃO DE PROTESTO. CONTRA TODAS AS HUMILHAÇÕES QUE TÊM QUE... "ENGOLIR"

E pronto! Aconteceu, não aconteceu?
A etapa até começou dentro da normalidade (cerca de 40 km corridos na primeira hora) mas, mal o pelotão entrou em França - por mais que o queiram branquear - é inegável que levantou o pé. A segunda hora foi corida a 30,7 km/hora... a 110 km da meta, a média, relativa ao percurso já cumprido, era de 35,5 km/hora, a chegada aconteceu, mais coisa, menos coisa, uma hora depois do pior horário calculado. A média final foi de 35,8 km/hora e, fazendo fé no que ouvi na EuroSport, a dada altura o pelotão rolava calmamente a... 18 km/hora.

O camisola amarela, qual porta-voz do pelotão, apareceu a dialogar com o director-técnico da prova. Este mostrava-se preocupado. Cancellara sorridente explicava-lhe qualquer coisa que não pudemos ouvir. E acenava para a frente.

Um director-desportivo (escapa-se-me agora quem) disse à reportagem da EuroSport que quando faltassem 60 km para a meta as coisas entrariam na normalidade, reconhecendo que o que estava a acontecer... não era normal.
Mas, ficou implícito, os DD nada podiam fazer. A concertação era entre os corredores.

Foi bonito? Não. Não foi.
Desrespeitou-se o público? Talvez.
Mas os Corredores não têm outra maneira de manifestar a sua posição.

Etapas com mais de 230 quilómetros são inevitáveis? Serão. Mas quem é maltratado, como o foram, no seu colectivo - muito para além dos 195 que estavam em prova - só pode marcar a sua posição assim.

Amanhã, nas crónicas ao correr da pena vão ignorar aquilo que todos pudemos ver.

O pelotão protestou, da única forma que era possível - a alternativa teria sido uma posição de força, se pudesse ter sido garantido que NINGUÉM assinava o infame documento que foram obrigados a assinar - e o protesto aconteceu.

Como era previsível... na primeira etapa que terminou em França.
Amanhã tudo voltará ao normal.
Porque os Corredores ainda são os que mais amam a modalidade que abraçaram.

Até porque são os únicos que sofrem na pele a "coisa" de se ser... Corredor Profissional. Aparentemente, indefesos perante todos os outros agentes da modalidade. Adeptos incluídos.

Uma palavra, ainda assim, para o estoicismo de todos aqueles que aguentaram, firmes, no seu lugar, que o pelotão chegasse.

Ah!... Em relação à chegada, que diriam algumas mentes mais iluminadas se tivesse acontecido na Volta a Portugal?
Reparem... logo a seguir à última barreira...

Nota

Leio as páginas que cada um dos "desportivos" dedicam ao Tour e sou atacado por incontornável melancolia.

Que tristeza!... Que pena!...