quarta-feira, dezembro 13, 2006

355.ª etapa


CICLISMO PORTUGUÊS, QUE FUTURO?
INTRÓITO I

Neste já longo período que levo afastado das lides profissionais descobri uma coisa, coisa essa que não é opção quando em actividade. Há alturas em que não me apetece escrever. Certo que lá aparece um assunto ou outro que, até para contrariar a monotonia, forçam ao quebrar dessa preguiça, luxo ao qual não tenho habitualmente direito.
E serve este intróito para me desculpar perante os meus leitores pelo facto de os ter deixado pendurados quase uma semana na expectativa quanto àquilo que penso sobre o que poderia ser uma saída para o ciclismo nacional.
Vai agora.

Convém, antes de mais, estender o cenário sobre o qual pretendo projectar aquilo que penso.

É evidente que, no actual panorama, o ciclismo português atingiu há muito o prazo de validade. Em conversas que vou mantendo com várias pessoas ligadas à modalidade, e quando se trata de especular sobre o futuro, vai-se do 8 ao 80, esquecendo-se que… no meio está a virtude.
Há uma anedota que diz, recordando o livro do Genesis, no qual se lê que o Mundo foi construído a partir do caos, que já não nos falta nada… é começar a reconstruir.
Mas falta – e esta é que é a grande verdade do nosso Ciclismo – quem esteja disposto a deitar mãos à obra.

Não levem a mal por os chamar assim, mas existem vários teóricos para quem a reestruturação do Ciclismo Português tem que ser feita de base. Não sei se desta base que temos mas, mesmo que não seja assim, não concordo.

O Ciclismo é uma modalidade com particularidades muito suas. E aqui valho-me de um exemplo: as escolinhas de futebol. Vão ver que não é inocentemente que falo disto.

Quantos anos tem esta moda? Que vingou e a prova é que as referidas escolas – pagas a preços altíssimos – têm vindo a multiplicar-se. Mas, e até pelos preços cobrados, pecam por serem selectivas. Só os filhos dos que têm um rendimento bastante superior à média nacional podem dar-se ao luxo de colocar o petiz a tentar aprender de forma a vir a ser um novo Cristiano Ronaldo. E atenção a esta parte que também é importante.
Mas a história diz-nos que os melhores futebolistas de sempre vieram da rua. Do futebol da bola de trapos… de Eusébio a Pelé. Até o próprio Cristiano Ronaldo.
Há coisas para as quais o dinheiro não importa. Uma delas é o talento com que cada um nasce.

Por isso, e por educação, eu limito-me a sorrir perante quem defende que o ciclismo tem que começar na escola. Nas escolas.
Eu defendo o ciclismo na Escola – assim, em termos genéricos – mais pela oportunidade que isso traria a muitos jovens de experimentar uma bicicleta do que por outra coisa. Pode-se fabricar um campeão na escola? Ah, pois pode. Vejam-se os exemplos da antiga RDA, dos quais Jan Ullrich foi o último produto acabado se bem que com as duas alemanhas praticamente reunidas na altura em que começou.

E se eu acho que as escolinhas de futebol são sectárias, que dizer das escolas de Ciclismo? Então, o nosso maior nome na modalidade não foi, ele mesmo, um campóneo que usava a bicicleta para ir trabalhar na quinta?

Tentar reconstruir o edifício do Ciclismo nacional a partir de escolinhas – particulares ou patrocinadas pela FPC – revelar-se-ia, mais cedo, ou mais tarde, uma aposta furada com a qual só ganhariam os respectivos promotores. Ganhavam em termos financeiros, que no que à prática respeita, duvido muito que desse alguns resultados.

O que não quer dizer que não sejam importantes no todo da estrutura do Ciclismo. Como tentarei explicar. Mas não sendo a base da renovação.

Volto então ao exemplo das escolinhas de futebol.
Qual foi o segredo descoberto por meia dúzia e que parece ter dado resultados? (Financeiros… deu, na óptica do promotor. Práticos… estou à espera do primeiro exemplo.)
Pois bem, com o advento de inúmeras jovens esperanças da modalidade, dizendo de outra forma, com a idade dos ídolos a baixar exponencialmente, algumas das estrelas do passado viram na abertura das escolinhas um projecto e negócio bastante viável. Que se provou ser verdade.
E muitas delas (dessas estrelas) contavam ainda com a auréola que os coroou como chamariz. E voltamos ao ponto em que, quem tiver dinheiro é que põe os filhos nessas escolas. Mesmo que sejam morfologicamente inadaptáveis à condição de jogadores de futebol.
Não queria que isso acontecesse no Ciclismo. Quem se chegasse à pretensa formação apenas porque o pai teve dinheiro para inscrever o puto numa escola.

(Eu sei que não é totalmente assim, nas escolas que já existem. Mas que também há partes disto que se encaixam na realidade, disso também não tenho dúvidas. Como acontece o caso de muitos pais que foram corredores medíocres, obrigarem os filhos a escolher o Ciclismo na esperança de verem neles confirmados os sonhos que os próprios falharam.)

Não!
Em definitivo, apesar de achar que têm a sua importância, não será a partir das escolas que o nosso Ciclismo poderá encetar a revolução.

354.ª etapa


CICLISMO PORTUGUÊS, QUE FUTURO?
INTRÓITO II

Partamos, então, na busca de onde é que essa tal revolução tem que ser iniciada.
Diz-nos a ciência – como o é a matemática – que qualquer coisa para crescer tem que partir de uma base. Base à qual se vão acrescentando degraus, definitivamente mais estreitos, cada um em relação ao seu antecessor, o que nos leva à figura de uma pirâmide.
Pirâmide é algo que, inevitavelmente, vemos como sólido. Até historicamente capaz de resistir aos tempos. E é claro que, seja em que campo fôr da nossa sociedade, para que algo se sustenha nos píncaros precisa que uma boa base esteja sob si, a sustentá-lo, Mas há sempre excepções que confirmam a regra.

Estamos a falar de Ciclismo, sim. Mesmo que ainda não o pareça.

Agora… sendo que a base, larga, de sustentação precisa mesmo ser formada por quem se sinta verdadeiramente atraído pela modalidade – ao contrário da tal história das escolinhas de futebol, onde só entra quem tiver paizinhos ricos (ou quase isso), mesmo que tenha tanto jeito para a coisa como eu para tocar piano – é preciso motivar os muito jovens para uma modalidade extremamente exigente. Uma modalidade sobre a qual, antes de tudo, os pais devem alertar os filhos que não é só aparecer de maillot colorido vestido numa bicicleta artilhada para dar nas vistas. Uma modalidade que exige sacrifícios que outras dispensam perfeitamente. Onde a força de vontade é meio caminho andado o que significa que a vontade da força sai derrotada à partida.

Os miúdos que escolherem o Ciclismo, terá que ser por amarem, de verdade, a modalidade. E depois de lhes ter sido explicado tudo pelo que terão de passar e, principalmente, tudo pelo que nunca vão poder passar.

Chegados aqui, temos drasticamente reduzido o número de candidatos a Corredores. E chaga o segundo passo, não menos importante.

Continuo a auxiliar-me do exemplo das escolinhas de futebol.
O que é que um jovem de 10, 11… até aos 15 anos perde por andar numa escolinha de futebol? Nada!
Pratica algum exercício físico, o que é sempre bom, alarga o seu relacionamento com outros jovens da sua idade e… nada, mas mesmo nada o penalizará. Antes pelo contrário. Dirá, até ao fim da sua vida que andou na escola de futebol, com o fulano de tal que, por acaso, se tornou numa das estrelas da modalidade, quando tiverem ambos 22 ou 23 anos.

E o que andou numa escola de Ciclismo?
Ultrapassada a aprendizagem inicial, entrando no universo da competição… deixa de poder ir com os amigos (e amigas) às festinhas, às saídas de fim-de-semana (porque, muitas ou poucas, lá irá tendo as suas corridas)… numa frase: entra num mundo à parte. Mundo onde só quem à volta dele orbita aparece. É diferente na escola, é diferente na rua onde mora… às vezes é diferente na própria casa.
É precisa uma grande força de vontade.

E, hoje em dia, o que é que acontece?
Que se abraça esta causa, pondo de lado tudo o que já referi, sobe-se a muito custo todos os degraus até, por exemplo, aos sub-23 e, aos 23 anos de idade, numa altura em que é preciso fazer uma opção clara, em relação ao futuro, no que diz respeito à carreira académica, aos jovens – à enorme maioria dos jovens – depara-se-lhes um caminho sem saída.
Não há mais hipóteses para eles no Ciclismo.
Não há equipas. Não há competições.
Os mais razoáveis dão o braço a torcer. Encostam a bicicleta e maldizerão para sempre o terem um dia escolhido o Ciclismo. Perderam as festas de anos, as saídas ao fim-se-semana. Perderam os desafios próprios da sua idade de então. Reduziram o seu mundo a meia dúzia de pessoas, todas elas ligadas a uma coisa que, agora, chegada a hora da verdade, os rejeita.
A separação, até por ser em conflito,com aquilo que um dia sonharam, será eternamente dolorosa.

Quando, lá mais para a frente, voltar a falar de escolas de Ciclismo, será sempre tendo em conta que os jovens que escolherem esta modalidade como hipótese de saída profissional – sendo que esta profissão é daquelas que tem que ser escolhida, e não pode acontecer por mero acaso – partem tendo um mínimo de hipóteses de poderem vir a concretizar os seus sonhos.

Recupero, uma vez mais, algo já dito. Como em tudo na sociedade actual, para que seja possível alguém segurar-se no topo tem que beneficiar de uma base de sustentação bastante alargada. Tem que haver mais candidatos do que lugares disponíveis para que apenas os melhores possam continuar em frente, mas não pode continuar a ser, mais do que um triturador de sonhos, um triturador de vidas.

É justo – mais!...é fundamental! - que, quando se entra num jogo as regras estejam perfeitamente definidas.
É com isso que temos que nos preocupar na reconstrução do nosso Ciclismo.

353.ª etapa


VUELTA - E AO 4.º DIA...
OS LAGOS DE COVADONGA

É hoje – 11 horas, em Portugal – apresentada a edição de 2007 da Volta a Espanha (Vuelta). Para já, e feitas as pazes com a Galiza – já este ano houve uma etapa a terminar em Lugo – já é do conhecimento público que a prova arranca em Vigo, a 1 de Setembro. Este ano não há prólogo, sendo que no primeiro dia de corrida o pelotão não será chamado a grandes esforços. A etapa deve ter apenas uma centena de quilómetros.

Mas esta partida, suave... engana.

Logo no quarto dia de corrida há a primeira das 4 chegadas em alto previstas.
Vai ser nos Lagos de Covadonga (Astúrias).
E ainda antes do primeiro dia de descanso – provavelmente a antecedê-lo – acontecerá o primeiro dos dois cronos individuais definidos. Vai ser em Saragoça e terá à volta dos 50 km de extensão. O segundo será no dia 22, na véspera da chegada a Madrid, como habitualmente, ao Paseo de la Castellana. Este segundo contra-relógio vai ter apenas 25 quilómetros mas será corrido… na Serra de Madrid, na zona de Navacerrada (mas não é uma crono-escalada).

Voltando atrás, à recuperação da chegada ao alto dos Lagos de Covadonga, estarão, na altura, passados sete anos desde que, em 2000, a vitória sorriu a um corredor de uma equipa portuguesa. Foi Andrei Zintchenko, da LA-Pecol-Alpiarça.

Depois de uma manhã e princípio de tarde agradáveis – tínhamos saído de Santander – com a aproximação da hora de chegada dos corredores caiu uma autêntica borrasca, daquelas de a chuva fazer pó e o pequeno pavilhão de Cangas de Onís – onde se instala habitualmente a Sala de Imprensa – ficou às escuras por três vezes. Lá fora, parecia um dilúvio, de tal forma que o Bruno Santos, que fazia equipa comigo, pel’A BOLA, e o Fernando Emílio, então ainda na Rádio Comercial, vendo-se impedidos de subir os últimos quilómetros tiveram que separar-se e emboscar-se nos dois caminhos por onde era mais provável que as equipas passassem de regresso aos seus hotéis de forma a não perderem a possibilidade de falar com o Andrei Zintchenko e com o Vítor Paulo, na altura ainda o director-desportivo da equipa. E eu a escrever às escuras sem tirar os olhos do indicador da carga da bateria do computador…
Ai que saudades, ai, ai!...

terça-feira, dezembro 12, 2006

352.ª etapa


A NOTÍCIA QUE ERA
MAIS DO QUE ESPERADA

Nem traduzo, porque, creio,
todos compreenderão
o Comunicado da Organização da Volta a Espanha
que me chegou cerca das 5 da tarde de hoje.


COMUNICADO DE PRENSA
12 de diciembre de 2006

Habiéndose encontrado, en todos sus intentos de acercamiento a la Unión Ciclista Internacional, con el rechazo de ésta ultima a volver a un modelo deportivo abierto, y no deseando ver sus pruebas inscritas en el sistema cerrado llamado “UCI Pro Tour”, RCS Sport, A.S.O., y UNIPUBLIC SAU, organizadores principalmente de las Tres Grandes Vueltas (Giro de Italia, Tour de France y Vuelta a España), han tenido que definir las condiciones de participación, a partir de 2007, en sus principales pruebas.
Esas condiciones se alinean en el mismo sentido de la apertura deseada por la tres Federaciones Nacionales de quienes dependen y por muchos otros organizadores de carreras.

1 – Las once pruebas a que se refieren son : Paris-Nice, Tirreno-Adriatico, Milano-San Remo, Paris-Roubaix, la Flèche Wallonne, Liège-Bastogne-Liège, Giro d’Italia, Tour de France, Vuelta a España, Paris-Tours et Giro di Lombardia.

2 – A partir de 2008, se clasificarán 16 equipos, en base a criterios en curso de elaboración, basados principalmente en los resultados deportivos obtenidos en los dos años anteriores : los resultados de los años 2006 y 2007 calificarán para las pruebas de 2008, los resultados de los años 2007 y 2008 calificarán para las pruebas de 2009 y así sucesivamente.
El detalle de estos criterios será comunicado antes del 1 de marzo 2007, después de consultarlo previamente con los grupos deportivos y los corredores.

3 – Para la participación en sus carreras en 2007, inevitablemente año de transición, los organizadores de las Tres Grandes Vueltas consideran como clasificados, con el fin de no crear problemas demasiado tarde ya a ninguno, a los 18 grupos deportivos ya preparados para disputar sus pruebas, y que son : AG2R Prévoyance, Bouygues Telecom, Caisse d’Epargne-Illes Balears, Cofidis, Crédit Agricole, Davitamon-Lotto, Discovery Channel, Euskaltel-Euskadi, Française des Jeux, Gerolsteiner, Lampre-Fondital, Liquigas, Quickstep-Innergetic, Rabobank, Saunier Duval-Prodir, T Mobile Team, Team CSC et Team Milram.

4 – Los grupos deportivos clasificados para esas carreras no tendrán obligación de participar en ellas: su participación será a su libre decisión, indicando cada uno al organizador de esas carreras, a más tardar el 31 de diciembre del año anterior, si desea o no participar.

5 – El organizador de cada prueba se reserva el derecho de rechazar la participación de cualquier corredor o miembro del equipo cuya presencia pudiera perjudicar la imagen de la carrera.

6 – El organizador de cada prueba podrá otorgar invitaciones para participar (wild card).
Para cada una de las Tres Grandes serán otorgadas lo más tarde 3 meses antes del comienzo de la carrera, y el numero total de equipos que participarán en una gran Vuelta no podrá exceder de 20 a partir del 2008 – 22 para el año de transición 2007.

351.ª etapa


DECISÃO ACERTADA

Ainda aqui não comentei a notícia publicada na última edição do Expresso e que respeita ao Velódromo que, finalmente, parece que vamos mesmo ter.
De novo – mas não menos importante –, ao que já se sabia, vem a novidade de, após algumas reuniões e auscultação de opiniões, o Município da Anadia, que será responsável pela obra, ter decidido que o empreendimento vai ser coberto.
Decisão sensata. É verdade que fomos bafejados com um clima ameno, mas, e como se tem visto nos últimos tempos, alguma coisa havemos de ter tido feito para que o S. Pedro ande com tão mais fígados em relação a nós.
Com a cobertura do recinto – mais do que ganhar um espaço que pode ser utilizado para a realização de outros eventos desportivos (e está certo que o empreendedor queira ver, o mais rapidamente possível, recuperado algum do dinheiro investido) –, mais do que isso, escrevia, fica a certeza de que não haverá hipóteses de, com tudo preparado, algum festival de pista tivesse de ser adiado, quer pela chuva, quer por qualquer ventania impossível de prever em tempo útil.


Assim, coberto, o Velódromo pode mesmo funcionar os 365 dias por ano.
Em relação ao custo inicial previsto, a cobertura custa apenas mais um quarto do investimento anteriormente decidido. E têm que se juntar todas as boas vontades para que a obra seja feita.

Sem me querer imiscuir em assuntos que não me dizem respeito, o Director-técnico desta nova infra-estrutura só pode ser um homem: Alves Barbosa. E não é só pelo seu passado de grande corredor e ídolo – representante daquela região e tudo –, mas porque o homem continua a ser um dos que mais gosta e sabe de ciclismo em Portugal. E tem jeito para ensinar.

Tanto a autarquia como a FPC bem que podiam começar já a pensar que ao complexo ficava muito bem o nome de Velódromo Alves Barbosa.

350.ª etapa


SÉRGIO PAULINHO
ESTEVE COM "BOSS" LANCE

Sérgio Paulinho esteve, entre o dia 4 deste mês e domingo último, nos Estados Unidos (em Austin, Texas) cumprindo o primeiro estágio junto dos seus novos companheiros, na Discovery Channel. Como é habitual, esta primeira reunião do plantel serviu para a apresentação das caras novas e promover a sua integração no grupo de trabalho. Houve algum divertimento - "batalha" de paint-ball - muito ginásio e também alguma estrada. No domingo, por exemplo, e depois de terem saído para uma "voltinha" de duas horas e meia, a meio do percurso a equipa técnica resolveu prolongar o exercício para... quatro horas. Para queimar mais algumas calorias, pois então…


Aqui à esquerda, o Sérgio [lá atrás]
num mini-pelotão comandado por...
Lance Armstrong, himself.










Entretanto, Sérgio Paulinho já tem algumas indicações sobre o seu arranque de temporada e, n’ A BOLA de hoje revela que vai estar na Volta ao Algarve.
Antes disso, voltará aos States para o também habitual estágio na Califórnia. Nessa altura ficará a saber se vai, ou não, fazer alguma das... Grandes Voltas.

domingo, dezembro 10, 2006

349.ª etapa


E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?

Não há um mês ainda, numa reunião que sentou à mesma mesa responsáveis da Comissão ProTour da UCI e representantes das associações internacionais de Equipas e de Corredores – ver etapa 329 –, reunião na qual foi, mesmo que tacitamente, reconhecido que o actual Código de Ética não tem valor jurídico (é mais um Regulamento Disciplinar Interno), há dois dias, ao abrigo desse mesmo documento, a associação de equipas ProTour expulsou a Active Bay e a Discovery Channel. A primeira é a proprietária de uma licença ProTour – ainda não percebi se tem ou não equipa nem como é que há duas Astana… –, a segunda porque contratou Ivan Basso, pelos vistos banido pelo Cartel ProTour porque, quer a Federação Italiana de Ciclismo, quer o CONI (Comité Olímpico Italiano), não encontraram motivo para suspender o corredor.
Faz-me lembrar a história de um velho ditador que, tendo-lhe sido escondido que já não governava, continuava a despachar documentos-fantasma.
O que este Cartel parece desconhecer é a força dos tribunais estado-unidenses no que respeita à defesa dos Direitos dos seus cidadãos ou organizações.
Mas de Austin ainda não veio nenhuma reacção visível. Devem ter constatado o que nuitos já perceberam. Estes movimentos do referido Cartel não são mais que as convulsões finais do estertor de pré-defunto, numa morte pré-anunciada.
Em relação a isto, subscrevo na totalidade a opinião do Joaquim Nascimento (Record de ontem). É que, de facto, começa a faltar pachorra que chegue para reconhecer ponta de moralidade a esses senhores.

348.ª etapa


UM TUDO-NADA EXAGERADO...

Quem é que sabe quem foi Samuel Langhorne Clemens?
Há pouco mais de cem anos, na redacção do New York Journal chegou uma carta assinada por Samuel L. Clemens, datada de 2 de Junho de 1897, que dizia “Estava interessante a vossa notícia sobre a minha morte, mas escrita em termos um tudo-nada exagerados”.
Na verdade, Mark Twain, nome que adoptou enquanto escritor – autor das impagáveis aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn (entre muitos outros livros) – só morreu a 21 de Abril de 1910.

O artigo 2.16.016 do Capítulo XVI, referente ao Ciclismo de Estrada nos Regulamentos da FPC (transcrito dos regulamentos da UCI) diz textualmente: Apenas as Equipas Continentais Profissionais cujos processos a UCI considere em ordem o mais tardar a 20 de Dezembro do ano anterior ao ano da inscrição, podem ser registadas como Equipas Continentais Profissionais.

Ora, como hoje ainda estamos a 10…
E como os regulamentos têm, pelo menos, um ano…

Um tudo-nada exagerado me pareceu também o desenvolvimento dado pelo Norte Desportivo. O “José Azevedo pode sair do Benfica” é tão rigoroso quanto o “Devolvido”, entretanto emendado para “… entrega dos documentos em falta”.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

347.ª etapa


AS COSTAS QUE SERVEM PARA TODO O "PAU" BATER... E OS "INTOCÁVEIS"

Todos os que se interessam pela coisa do doping deviam estar a seguir muito atentamente o que se está a passar em consequência do publicado ontem no jornal francês Le Monde. Revelando ter em seu poder cópias de alegados planos de treino pessoal, para alguns dos mais mediáticos futebolistas de algumas das principais equipas espanholas, escritos pela própria mão de Eufimiano Fuentes, o diário gaulês abalou, pelo menos por 48 horas a paz podre que é apanágio do chamado desporto-rei.

Quando, e desde praticamente o início da Operação Puerto, se disse que o médico canário não tinha apenas ciclistas como clientes, esta parte foi rapidamente apagada dos artigos (muitos) que se lhe seguiram por toda a Imprensa, espanhola e não só.

Parece que só poucos, muito poucos – e quase todos com alguma ligação ao ciclismo – vieram, ao longo deste tempo, tentando manter viva essa informação que não é descartável. Havia, entre os clientes de Fuentes desportistas de diversas áreas, incluindo o futebol.

Ora, para desespero dos espanhóis, foi um jornal francês – um jornal generalista, mas não um jornal qualquer, foi o Le Monde – que trouxe o assunto à luz do dia.

Aliás, na sua edição de hoje, o mesmo Le Monde traz o depoimento de um médico, hematólogo e especialista em assuntos de doping, que diz que “os problemas de dopagem no futebol são conhecidos desde há dez anos” e o artigo começa mesmo por recordar que, em 1998, o Procurador-adjunto de Turim abriu um vasto inquérito no qual foi reconhecido que vários clubes de futebol estavam implicados num sistema organizado de dopagem.

Eu sempre disse que o doping é um problema de todo o desporto. Diz-se que de alta competição, mas eu passava até sem este atalho e mantinha a ideia inicial. Todo o desporto. E insurjo-me quando, sempre, mas sempre, se amplia até o ruído ser ensurdecedor cada um dos casos conhecidos no Ciclismo ao mesmo tempo que se calam os registados em outras modalidades. Ou, dizendo de outra maneira, se procura (quase diria: vasculha) por qualquer coisa suja, no Ciclismo enquanto se passa, olha para o alto e assobia baixinho no que respeita às outras modalidades.

O prestígio de um jornal como Le Monde garante-nos que não se trata apenas de um artigo – ou uma investigação – inconsciente. Se falam em provas documentais é porque as têm e a verdade é que na entrevista que Eufimiano Fuentes lhes concedeu não desmentiu nada. Antes pelo contrário. Fez questão em ficar calado dizendo que já foi ameaçado de morte por três vezes e que não quer sê-lo pela quarta. Mas sempre disse que “há desportos (modalidades) contra os quais se pode ir e outros que não…”

Numa vista de olhos pelos jornais desportivos espanhóis de hoje há uma diferença grande entre a Marca e o As. Este toca ao de leve naquilo que o Le Monde diz e aproveita para reeditar toda a história em 5 capítulos de Jesus Manzano. É sublime a mensagem. Quando se fala do futebol, relembram-nos um caso com 3 anos e relacionada com… o Ciclismo. É das tais contra as quais se pode ir…

Razão tem Aitor Gonzalez que falou à revista espanhola Interviú e disse é fácil atacar o Ciclismo porque não existe nele uma postura de autodefesa ou mesmo de contra-ataque.

Mas a Marca dedica um espaço significativo àquilo que o Le Monde levantou. Dando voz aos visados. E o que é que estes dizem? Frank Rijkaard – Barcelona, Real Madrid, Valência e Bétis são os clubes visados na notícia do diário francês – diz, liminarmente que “é mentira”. Quique Flores, técnico do Valência, não acredita “que haja doping no futebol”. O treinador da Real Sociedade também não crê “que haja doping intencional no futebol” e até põe “as mãos no fogo” por isso. E, para terminar, um jogador do Barcelona acha que “isso é um caso encerrado”.

“Isso”? – A ligação de Fuentes ao futebol?
“Caso encerrado” – porque todos afirmam não acreditar? Só assim? Ponto final?

Mas se é tão simples… porque é que o Floyd Landis não se lembrou ainda de vir a público dizer que “isso é um caso encerrado!”? O que é que a comunidade desportiva (e jornalística) diria? Riam-se. Quantos se terão rido do outro, que é futebolista?

Pois parece que é verdade. Há modalidades intocáveis. Aliás, é curiosissíma a crónica de Fernando Carreño, na Marca. Referindo-se a este tema, e ao futebol, escreve com uma fina ironia: “Aqui no pasa nada”.

E isto trouxe-me de volta à memória um pequenino comentário (são sempre pequeninos e na última página) de um director de um jornal desportivo português – que não fica no Bairro Alto – que, em resposta a comentários que o chatearam, vindos da chamada Imprensa de Referência que vincavam o facto de os desportivos não dedicarem espaço para a investigação dos casos de corrupção no futebol. E que respondeu ele? Por outras palavras, que não estas, que “não se pode morder a mão a quem nos dá a comida”.

Mas pronto, não é que fique mais ou menos contente com a desgraça dos outros, mas sinto-me um pouco vingado por ver a minha opinião sustentada. Há doping sim senhor e NÃO É SÓ NO CICLISMO.

P.S.: Ah!... No futebol podem existir as tais forças ocultas que têm demasiada influência para que um caso destes consiga ir até ao fim, mas o presidente do Ossassuna, 5.º classificado, a época passada, já reclama para si o título de campeão de Espanha. Os quatro clubes que ficaram à sua frente são exactamente os indiciados no trabalho do Le Monde.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

346.ª etapa


REFLECÇÕES - IV

(Sequência do artigo anterior, que já vem no seguimento dos dois que o antecedem)

Curiosamente, antes daquela súbita e tremenda necessidade que foi a da criação do ProTour, o que se falava era que a UCI preparava mudanças no sentido de tornar mais fáceis as permutas de equipas pelas diversas organizações nacionais estando a pensar, para facilitar as coisas, em criar Circuitos Regionais dentro da Europa. Esta sim, pareceu-me desde logo uma solução, não só exequível, como com grandes hipóteses de, realmente, ajudar ao desenvolvimento da modalidade em alguns quadrantes do espaço europeu.

(Porque terá sido que a ideia ProTour mandou tudo isto para o lixo?)


A ideia era básica, sem nada de extraordinário em si. Promover-se-ia a aglutinação em calendários regionais de provas em círculos não muito alargados de forma a que qualquer equipa dos países abrangidos pudesse, sem despesas demasiadas, apresentar-se em todas as corridas. E ia, de facto, pelo menos proporcionar a hipótese de desenvolvimento do Ciclismo em algumas regiões europeias.

A leste da Polónia centrar-se-ia um desses círculos que reuniria os calendários polaco, bielorrusso, lituano, letão, estónio e, provavelmente o ucraniano.
A Alemanha seria o centro de um outro círculo que englobaria Áustria, Rep. Checa, Suíça e o Benelux.
A região dos balcãs teria o seu próprio círculo, tal como a Escandinávia e as Ilhas Britânicas. Itália e França têm equipas e provas suficientes para constituírem círculos e restava a península Ibérica onde se conjugaram os calendários de Espanha e Portugal.
Gostei da ideia logo desde o início.

Isto foi pensado ainda no tempo das Divisões. As equipas da I Divisão tinham primazia num calendário pan-europeu que englobaria as Três Grandes e as provas que formavam a então Taça do Mundo.
Nos diversos calendários regionais haveria provas para as equipas da II Divisão, com possibilidade de convites a algumas da III Divisão e cada país manteria os seus calendários nacionais de forma a que pudessem continuar a existir as equipas de elite, semi-profissionais.
Cada equipa pontuava no seu escalão e, no final da temporada, haveria subidas e descidas.

Ora, isto vinha proporcionar, por um lado, muito maior competitividade, por outro a que a ilusão (no sentido espanhol da palavra, que é o de expectativa) aberta a qualquer equipa de que poderia, dentro das suas possibilidades, ir subindo na hierarquia. Foi o que aconteceu com a Maia, em 2002.

Uma boa temporada, traduzida em resultados, abriria a qualquer equipa as portas do escalão superior até chegar à I Divisão onde, por fim, poderia almejar em participar numa (ou mais do que uma) das Três Grandes. Sonho de qualquer Corredor ou Técnico e possibilidade a ser ponderadamente estudada por patrocinadores, tendo em vista o impacto que daí adviria em termos de Comunicação Social e, principalmente, da televisão.

E como é que as coisas funcionariam?
Simples. As corridas continuavam a ser divididas em categorias. As equipas da I Divisão corriam as Grandes Voltas (GV), a Taça do Mundo de Clássicas (TMC), as HC e as .1, organizando o calendário conforme melhor lhe conviesse; as da II Divisão só não podiam correr as GV e a TMC, e nas outras ficavam circunscritas ao respectivo calendário regional, tal como aconteceria com as da III Divisão que poderiam participar em todas as .3 (categoria que parece ter sido extinta), as .2 - por convite, se noutro país que não o seu – e as .1, estas apenas no seu respectivo país.

País periférico, sem hipóteses de escolha, Portugal – e a FPC – deveria ter feito alguma coisa para que esta ideia se tivesse sobreposto ao ProTour que, repito-me, só é uma realidade porque um punhado mal medido de pessoas viu nela a oportunidade de fazer dinheiro. Muito e rapidamente. Se calhar para refazer os cofres da UCI que terão ficado minguados com o dinheirão que custou a faraónica sede construída em Aigle.

Mas voltando ao que interessa, quer dizer que não íamos ter mais equipas italianas em Portugal (sem ser na Volta), nem holandesas ou belgas? Ou japonesas? Nas corridas abaixo da categoria .2 não. E qual era o mal?
Nas .1 (que haveríamos de ficar com algumas, mesmo que houvesse uma reestruturação – actualmente temos 6) podiam vir as da I Divisão, aquelas que mesmo em Portugal têm adeptos e nas quais correm as principais figuras do pelotão internacional.

E a partir do próximo artigo chego, finalmente, ao que é apenas a minha (humilde) proposta para a reorganização do Ciclismo em Portugal. Como as coisas estão – ProTour – não vejo saída, mas reorganizado o Ciclismo como atrás deixei exposto e que não é ideia minha – repito: era o que se falava antes de a avalanche ProTour ter varrido tudo – então tudo se tornaria mais fácil. Como irei tentar explicar.


(Só mais à noite)

345.ª etapa


REFLECÇÃO - III

(É preciso que leiam as etapas 344 e 343 para seguirem a linha de raciocínio)

Ontem fiquei no ProTour. Recomeço daí.
A ideia surgiu de repente e não foi dado a ninguém muito tempo para a pesar. Para ver os prós e contras. Num primeiro impulso as equipas aderiram. Malgrado a necessidade de engordarem os orçamentos, motivou-as o facto de terem garantida a presença nas principais provas do Calendário Internacional. E isto é sempre um argumento de peso quando se pede ao patrocinador que invista um pouco mais. Depois, havia a garantia das transmissões televisivas que, não sendo a única, é a melhor e mais tangível forma de ver traduzido em publicidade o investimento feito pelos patrocinadores.

De qualquer modo, o Calendário assentava, na sua maior parte, em corridas já existentes. E com passado histórico. Para o ajeitar, promoveram-se mais uma ou duas. Terá sido pelo ProTour que na Alemanha se recuperou a sua volta e a Polónia viu promovida a sua. Uma corrida interessante mas que é uma das brechas – das várias que há – nesta estória do ProTour.

Para fazerem face ao desmesurado calendário que, obrigatoriamente têm de cumprir, as equipas aumentaram os seus plantéis até aos 30 corredores. Mais atletas do que o plantel de uma equipa de futebol. E todos têm de correr. Por isso há corridas onde estão as camisolas mas faltam os nomes sonantes. Por isso há casos de fraca aderência de público, de pouca receita televisiva. Há casos insustentáveis que, mais dia, menos dia, acabarão por reconhecer que não vale a pena estar no ProTour.

Quem rapidamente percebeu que não valia mesmo a pena estar no ProTour foram as Três Grandes. Aqui foi gritante a forma, quase diria ursupadora, como a UCI se portou.
Giro, Tour e Vuelta tinham as vacas, eram donos das pastagens e recolhiam e vendiam o leite. A UCI propôs-lhe manter as duas primeiras, mas ficava com o leite que juntava ao demais, que recolhia nas outras provas, seria ela a vendê-lo e depois distribuía os dividendos de forma equitativa. Não antes de retirar para ela própria uma percentagem.
Ora, não era difícil de perceber que, organizações altamente profissionalizadas, com estruturas bem montadas e a funcionar a contento não tardariam a perceber que, no final, acabariam por estar a pagar défices de outras organizações. E organizações como a Vuelta também não levaram mais de dois anos a perceber que, chegados a Setembro, metade do seu pelotão já se arrastava, vergados os atletas ao peso de um número de corridas inaceitável. O braço de ferro não tardou.

Tendo feito contas com o ovo no cú da galinha, a UCI mostrou-se inflexível e começou a cavar – embora, estou em crer, ainda o não tenha percebido – a sepultura do ProTour.

Giro, Tour e Vuelta ainda aceitaram, nos dois primeiros anos, dar guarida a todas as equipas ProTour, embora, e nomeadamente na corrida espanhola, metade delas só se apresentasse para engrossar o pelotão. Isto numa altura em que vinha a ficar claro que os espanhóis iam tendo melhores pelotões que o Giro, muito condicionado ao facto de em Itália sempre ter existido um alargado número de formações que, por uma questão de lógica, a organização convidada não sobrando espaço para levar equipas de outros países. Fora do ProTour.

Para o ano as coisas já mudarão de aspecto. Qualquer das três organizações já anunciou – ou melhor, fizeram-no em conjunto – que assumem a modificação das ordens emanadas da Suíça. Alargaram o número de lugares abertos a convites por conta da organização. E para o ano vão alargar ainda mais. O negócio – porque é disso que se trata – é deles e eles querem ter na sua mão a respectiva gestão. Porque, para que o negócio seja rentável é preciso haver espectáculo, tratarão de salvaguardar que os protagonistas o proporcionem.

Não foi por eu ser português e ele ser diplomático que o Victor Cordero me disse, em entrevista que lhe fiz, que preferia ter a Maia no pelotão a qualquer uma das três ou quatro equipas italianas que era obrigado a acolher. Não, depois das grandes corridas que a equipa portuguesa fizera nos três anos anteriores.

Entretanto, na ânsia de irem buscar dinheiro a todo o lado, desenhou-se um Calendário no qual, embora esticado ao máximo, ainda assim não foi possível evitar a sobreposição de corridas. E o que é que acontece? Ainda por cima em final de temporada? Quando se aproximam os Campeonatos do Mundo de Estrada? Vão a essas corridas as segundas ou terceiras equipas e, nos casos em que se lhe juntam alguns dos nomes mais sonantes da formação, estes vão apenas preparar o Mundial.

Nem organizadores e muito menos o público resistirão muito tempo a isto.

(Leio hoje n’A BOLA que, numa atitude que parece ser mesmo o que é, revanchismo, a UCI pretende encurtar a Vuelta numa semana e fazê-la coincidir nas datas com as voltas à Alemanha e à Polónia. Se é assim que a UCI pretende fazer vingar o ProTour, podemos ficar descansados. Não será preciso fazer nada, ela própria o matará.)

Não creio precisarmos de muito tempo para que as organizações do Giro, Tour e Vuelta saiam em definitivo do ProTour e retirem, nos dois primeiros casos, as suas outras provas do mesmo circuito. Então pouco sobrará.

A UCI, como qualquer federação, ou união de federações, serve para regular a modalidade, não para organizar corridas visando com isso o lucro imediato. Hoje, não sei porquê, quando penso no que está a acontecer ao Ciclismo lembro-me da velha história da Galinha dos Ovos de Ouro.

Só que, neste caso, não é o dono da galinha quem quer enriquecer depressa de mais e, estou certo, rapidamente a porá a salvo das raposas. Que não entravam na história original, por isso a coisa não podia dar certo.

terça-feira, dezembro 05, 2006

344.ª etapa


REFLECÇÃO - I

O Ciclismo vive uma das suas piores crises.
Ora, aqui está uma frase que me garante, provavelmente, a unanimidade de opinião por parte dos meus leitores. Mas concordar com isto e depois não se mexer um dedo para que, no meio da confusão, se encontre, nem que seja só isso, uma esperança de achar o caminho certo, não vai, concerteza, alterar o estado das coisas.
Mas, confesso, num aspecto continuamos a estar ao nosso melhor nível. Na crítica. Mas critica-se e não se apontam alternativas.

E depois há aqueloutra faceta que caracteriza – e que bem o faz – o português. Apressamo-nos a festejar as vitórias, que são sempre nossas, e disparamos à queima-roupa contra as não vitórias que são, inapelavelmente, culpa exclusiva deles. E este eles abarca toda a gente que se ponha a jeito de servir de alvo.
Enfim, reconheçamos que, recorrendo à impagável sabedoria popular, podemos encontrar a definição perfeita no “em casa onde não há pão…”

Pois é! O problema é que não há dinheiro. Mas reparem… até as modalidades que têm bilheteira sofrem do mesmo mal. Portanto…
Mas já me focarei no Ciclismo em Portugal.
Para já, começo com a modalidade no global.

Os males por que passa o Ciclismo, na generalidade, não são tão fáceis de identificar assim, por mais piruetas que alguns teóricos dêem. Nos dias de hoje, e graças a uma operação policial – e à cobertura mediática da mesma – acontecida aqui ao lado, em Espanha, qualquer não iniciado vem, de cátedra, apontar o dedo ao doping como o grande, senão único mesmo, cancro que mina a saúde da modalidade. Nem se apercebem que, afinal, se está a falar de algo que tem vindo a coexistir, não digo desde sempre, mas pelo menos há umas 5 décadas (só para apresentar um número), com o ciclismo.

Não!
Não estou, de forma alguma, a advogar o branqueamento dessa prática.
Enquanto pessoa, e adepto, só posso estar contra toda e qualquer espécie de batota no desporto. O doping no ciclismo (e não só, e não só…), as simulações de faltas sofridas e de grandes penalidades inexistentes, no futebol, e por aí adiante…

O problema é que a grande (enorme!) maioria dos novos Torquemada não é capaz de apontar a diferença entre doping, real e negativo, de – porque não parámos no tempo – novas práticas que apenas têm como fim humanizar (proporcionando aos atletas uma melhor e mais rápida recuperação do esforço dispendido) um desporto que é dos mais duros que se praticam. Ou preferiam ver os corredores a arrastarem-se montanhas acima sem poderem sequer mover os pedais das máquinas?

Se calhar era esse o espectáculo que esperavam!...

The Show Must Go On. E quem exige que assim seja são os primeiros a, pudicamente, levantar depois a voz contra a mentira. Como se para se saber o que é mentira não fosse necessário conhecer a verdade.

Eu continuo a defender que não, o doping não está generalizado no pelotão. E quem pretende o contrário está, pelo menos, a cometer uma tremenda injustiça em relação à grande maioria dos profissionais que o tentam ser da forma mais honesta possível.
Mas há estes casos, como a Operação Puerto. Pois há. E também eu sei que não há fumo sem fogo. O mal está na generalização que, a partir de um caso ou outro, logo se faz, metendo toda a gente no mesmo saco.

Sem contar que, repetindo aqui o que há algumas semanas atrás escrevi no Cyclolusitano, a polícia não me pode tirar a carta de condução por, mesmo com a prova das câmaras de vigilância de um qualquer supermercado que me mostram a comprar meia dúzia de garrafas de whiskie, soprando eu o balão dê… zero! Ou me fique dentro dos limites legais previstos para a taxa de alcoolémia.
Descodificando: até pode haver bolsas de sangue – mesmo com EPO – com o nome do corredor lá escarrapachado mas, se não o apanharem num controlo anti-doping é atentatório dos seus Direitos, Liberdades e Garantias que o acusem seja do que for. Ou que tentem penalizá-lo seja de que forma fôr. Como vetar a sua presença numa corrida ou aconselhar a sua não contratação por nenhuma equipa.

343.ª etapa


REFLECÇÃO - II

Ainda não há meia dúzia de anos o Ciclismo – com pontos, aqui e ali (como em Portugal, por exemplo), onde já se experimentavam dificuldades – parecia viver em estado de graça.
Modalidade que sempre viveu das façanhas daqueles que se tornaram seus ícones, no início da década de 90, com o aparecimento de Miguel Induráin que conseguiu o que era julgado impossível – ganhar, consecutivamente, o Tour por cinco vezes – o ciclismo encetou uma fase de enorme vigor, em Espanha, onde, depois de alguns anos de menor visibilidade, de repente surgiram grandes equipas e uma mão cheia de corredores bastante acima da média. Ora, tal como numa bomba, este foi o rastilho-ingnição que levaria à explosão.

Tradicionalmente senhor de prestigiosos pergaminhos, o ciclismo italiano foi o que melhor respondeu ao boom espanhol e para além dos Alpes também surgiram alguns corredores que rapidamente se transformaram em ídolos. No meio, órfã de nomes (individuais e mesmo ao nível de equipas), a França sempre teve por si a felicidade de ser a pátria do Tour, onde os maiores nomes se juntam, ano após ano. O Ciclismo viveu anos dourados… até 1998, quando rebentou o caso-Festina. Apenas a ponta do tal iceberg que ainda hoje flutua à vista mas do qual não se percebeu ainda a verdadeira dimensão. Mas… Aqui estávamos a voltar atrás. Já escrevi sobre estes casos. Mas não escrevi uma coisa importantíssima: foi a própria modalidade a criar a regulamentação e a traçar as linhas de combate pelas quais ainda se rege. É no Ciclismo que a luta anti-doping é mais visível e com mais resultados. Só que se confunde isso com o ser a modalidade mais flagelada. Será? Eu tenho dúvidas.
Mas eu ia seguir em frente.

Esses anos de ouro, que pouco mais têm que uma década, levaram ao aparecimento de grandes equipas. Grandes em todos os sentidos. Grandes estruturas. Grandes e… caras. Difíceis de alimentar. Sustentadas, no caso de Espanha, por duas instituições – ONCE e Banesto – que puderam, durante anos, suportar o seu crescimento. O alerta soou de repente – e quase sem que houvesse tempo para lançar as balsas – quando, em simultâneo, ambas resolveram retirar-se. Aqui deu-se, de facto, início àquilo que hoje se vive.

Vejamos. Dando um passito atrás, a verdade é que, apesar da superioridade daqueles dois gigantes – como da Mapei, em Itália; a Telekom, na Alemanha; a Rabobank, na Holanda e o lento, mas seguro, percurso ascendente da, no início, insuspeita US Postal que até veio correr uma Volta a Portugal, sem ter feito nada de assinalável (um tal Tyler Hamilton ficou em 15.º, quase a 20 minutos do primeiro) – havia espaço, e ia havendo dinheiro, para que outras equipas surgissem e se mantivessem no grande pelotão, equipas onde, por sua vez, iam despontando também nomes individuais que iam ganhando o seu próprio espaço. Mexia-se, o Ciclismo. E como ia havendo dinheiro…

Eu estava em Espanha – acompanhando a Vuelta – e pude constatar o rodopio em que José Miguel Echevarry e Manolo Sáiz se viram envolvidos para encontrarem alternativas que tornassem viável a continuidade dos seus (caros, mesmo no sentido de dispendiosos) projectos. Não foi fácil.
E foi quando, ou por ter percebido que a situação poderia repetir-se quando o novo sponsor resolvesse sair, ou apenas porque vislumbrou a oportunidade para pôr em prática algo que já vinha a ser amadurecido, Manolo Sáiz, com a aquiscência do Estado Maior da União Ciclista Internacional concebeu o ProTour.

Falidas ou não, as sociedades proprietárias da licença para correrem o Grande Calendário acabariam sempre por conseguir quem as financiasse. Em troca prometem a maior das visibilidades às marcas que as patrocinarem e para isso comprometem-se a ir a todas. Para irem a todas têm de ter muitos corredores e por isso juntam nos seus quadros todos os que, noutras equipas, iam sendo a pitada de sal que dava o sabor à luta durante a temporada. Numa frase: reduziram o Ciclismo ao círculo fechado do ProTour levando a que se diluissem outros projectos que, por não terem hipóteses – e também não cabiam lá todos – de reunir os orçamentos milionários necessários ficaram pelo caminho.

E à élite das equipas juntou-se a élite das provas. Com o mesmíssimo resultado. Provas que deixaram de poder contar com as grandes equipas e com os grandes nomes… a pouco e pouco vêm a extinguir-se.

Menos provas, menos oportunidades para as equipas não-ProTour competirem, dificuldades financeiras nestas porque perderam a visibilidade…

Há três anos atrás, a diferença entre fazer uma temporada sossegada e uma onde fosse real a hipótese de se subir de divisão – logo, ficar mais perto da notoriedade – seria de 100 mil euros. Hoje, para entrar no ProTour não chegam 5 milhões. É preciso também que abra uma vaga.

O circo ficou restringido ao grande ProTour.
Os ricos vão fazer tudo para ficarem ainda mais ricos e, lenta mas inexoravelmente, os pobres ficarão mais pobres.

É por aqui que se deve começar a procurar uma solução.

sábado, dezembro 02, 2006

342.ª etapa


REORGANIZAÇÃO DO PELOTÃO A PARTIR DOS PONTOS APCP

Há alguns dias atrás deixei aqui o escalonamento das equipas portuguesas – já confirmadas para a temporada de 2007 – segundo os pontos UCI dos corredores que integram os respectivos plantéis.
Volto ao exercício, mas hoje com os pontos relativos ao ranking final da APCP. E chamo a atenção para um pormenor. Coincidência apenas, claro, mas que não deixa de ser engraçado. A Liberty – que aqui ultrapassa o Benfica, terceiro, atrás ainda da LA-MSS-Maia – soma tantos pontos a partir do ranking APCP quantos os que tem no ranking UCI. A partir desta classificação exclusivamente nacional, o Boavista reassume a condição de quarta maior, com a DUJA-Tavira a cair para a 7.ª posição e o Vitória-ASC a deixar a lanterna vermelha para o Paredes.
Então, a nova ordenação das equipas fica assim:

1.ª, Liberty, 763 *
2.ª, LA-MSS-Maia, 724
3.ª, Benfica, 667
4.ª, Riberalves-Boavista, 480
5.ª, Barbot-Halcon, 351
6.ª, Madeinox-Loulé, 323
7.ª, DUJA-Tavira, 237
8.ª, Vitória-ASC, 212
9.ª, Paredes-Rota dos Móveis, 163


* 763 são exactamente os mesmos pontos que os corredores da Liberty somam no ranking UCI.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

341.ª etapa


TAVIRA PROFISSIONAL?
MAS QUE OPTIMA NOTÍCIA!

Ainda ontem eu puxava pelos algarvios do Tavira, forcinha essa alicerçada nos números e força do ranking UCI – que a chegada de David Blanco aumentou exponencialmente – e o que leio hoje n’A BOLA?
A administração da empresa espanhola Desarrollos Urbanisticos Jimenéz Alvaréz (DUJA) sonha ainda mais alto e, provavelmente numa inconfidência involuntária, o vencedor da Volta a Portugal, presente na Gala APCP, ontem, na Póvoa de Varzim, revelou que, em 2008 é objectivo dos patrões da equipa inscrevê-la como Profissional Continental.
Que óptima notícia!

Contra a curteza de vistas de alguns dos principais agentes da modalidade, no nosso país, valha-nos a ambição desportiva de uma empresa espanhola que, parece, casou de vez com o ciclismo tavirense.

Pois é. A solução para a revitalização do nosso ciclismo passa muito mais pelo peneirar de todo o pelotão, de forma a construirmos três ou quatro equipas profissionais que disputem (pelo menos) o calendário Ibérico, do que pela uniformização, por baixo, de forma a termos 10, 12… 15 equipas continentais. Já afirmei que não temos economia que sustente isso e que a melhor escapatória será mesmo a de reduzir drasticamente o número de equipas profissionais (acabe-se com as Continentais que poucas hipóteses têm de correr lá fora – malgrado os exemplos que se registam) e enriqueçamos, com a experiência de todos, o pelotão elite.

Para o tal ciclismo doméstico.

Para que Portugal recupere o seu lugar no mapa do ciclismo europeu… que se assuma de uma vez por todas a redução do número de equipas profissionais.
Já aqui falei disto. Falei que seria uma óptima ideia o arregimentar de vontades e esforço económicos por regiões de forma a termos uma equipa profissional em cada um dos eixos nos quais o ciclismo tem ainda muito peso.


Pelo Algarve, parece que tem de ser uma empresa espanhola a assumir isso.
Que seja. Não vejo nenhum mal nisso.
E das zonas da Feira/Bairrada? E do Oeste? E do Minho?
Alguém quer pegar na ideia?

340.ª etapa


GALA DA APCP

Realizou-se ontem, na Póvoa de Varzim a I Gala da Associação Portuguesa de Corredores Profissionais. Lamento não poder ter estado presente e agradeço, aqui, o convite que me foi endereçado. Fica para o ano.
Quanto ao resto, li hoje em todos os desportivos que foi uma cerimónia à altura. Claro que foi. E os corredores mereceram-na. Os meus parabéns à equipa liderada pelo Paulo Couto.
Adaptando um verso de uma canção do Chico Buarque… “deve ter sido bonita a festa, pá!”




(na foto, o Pedro Cardoso, o Sérgio Ribeiro e o Tiago Machado)

quinta-feira, novembro 30, 2006

339.ª etapa


MORA NO ALGARVE A 4.ª "GRANDE"
DO PELOTÃO NACIONAL PARA 2007

Do exercício que aqui deixei ontem há duas situações que saltam à evidência. A primeira, que não espanta nada, é a que o Benfica reúne no seu plantel, e entre as formações portuguesas, o maior número de pontos UCI. E afirmo que não espanta em nada porque, pretendendo fazer parte do calendário internacional – e ao inscrever-se como equipa Profissional Continental – os encarnados, está bom de ver, preencheram o plantel com corredores que, de uma forma ou outra, já mostraram o seu real valor.

Ao Benfica, seguem-se-lhe, por ordem decrescente, a Liberty e a LA-MSS-Maia. Acontece aqui uma inversão de posições em relação aos pontos de cada uma delas, esta temporada, o que pode ser explicado com o número de pontos que cada uma delas perdeu para… o Benfica. Da Charneca do Milharado foram 24 pontos para a Luz (com Pedro Lopes) e da Maia um pouco mais… 209. Apenas 11 do Bruno Castanheira, mas 198 do Danail Petrov.
Mas, mais ponto, menos ponto, em segundo ou em terceiro lugar, as duas principais formações lusas nos últimos anos vão alternando num braço-de-ferro que tem servido para animar as contendas ao longo das temporadas.

A grande novidade, e creio que todos estarão comigo nesta apreciação, é a bastante clara subida da DUJA-Tavira que surge, inequivocamente, como… o quarto grande (usando uma terminologia em voga no futebol).
E a equipa algarvia não aparece aqui de pára-quedas.
Depois de várias temporadas em permanente desassossego sempre que era preciso renovar o patrocínio – e isto aconteceu anos a fio – há dois anos eis que uma empresa espanhola, mas com reais interesses comerciais no Algarve, resolve escolher o ciclismo como veículo de promoção. Para o Tavira foi o encontrar uma estabilidade financeira que quase nunca antes conhecera.

Este ano fez uma boa temporada, que culminou com uma excelente Volta a Portugal. Que há estabilidade financeira, isso percebeu-se logo quando, bem cedo, a equipa anunciou que manteria para 2007 todo o plantel com que contara este ano.
Que significa isto? Que os corredores não sentiram necessidade de tentar buscar melhores condições financeiras noutras paragens e que, se por acaso – que eu ignoro se houve ou não – aconteceram contactos de outras equipas interessadas neste ou naquele corredor, terá havido a possibilidade de, pelo menos, rediscutir as condições dos contratos desses corredores e conseguirem, como eu escrevi aqui, na altura, a primeira vitória da temporada do ano que vem. Que é, evidentemente, o facto de Vidal Fitas arrancar com os mesmíssimos corredores com quem trabalhou este ano, queimando aquelas etapas que normalmente é preciso queimar para que as caras novas que chegam a um grupo e trabalho nele se integrem

Mas, dizia, a DUJA-Tavira já havia então conseguido essa tal primeira vitória e, com aqueles 12 corredores já estava muito perto, em termos de pontos, da tradicional quarta equipa, o Boavista. Só que estava-nos ainda reservada uma outra (grande) surpresa. E, eis que, abrindo os cordões à bolsa, a empresa DUJA ofereceu a Vidal Fitas apenas o vencedor da edição deste ano da Volta a Portugal, o galego David Blanco.
E isto significa algo de bastante curioso.

Agarremos nas formações já alinhadas para a temporada de 2007 e o que vemos?
Se nada de anormal acontecer – longe vá o agoiro – mo dia 4 de Agosto do ano que aí vem, quando do arranque da 69.ª Volta a Portugal, a camisola amarela será… do Tavira; a camisola azul (montanha) será… do Tavira e a camisola vermelha (juventude) será do… Tavira.
Apenas a branca (pontos) escapou aos algarvios.
Não sendo nada e inédito, também não é pormenor para ser ignorado.

E a ida de Blanco para a cidade do Gilão dez com que a formação algarvia ultrapassasse – de forma claríssima – o Boavista e se acomodasse no significativo quarto posto do ranking apenas com menos 40 pontos que a Maia (3.ª) e mais do dobro dos pontos dos axadrezados.

Volto a reforçar que isto são meras teses académicas jogando com o valor que os números têm e recordando que, a partir do dia 1 de Janeiro todas as equipas estarão em pé de igualdade, com o puntómetro a zero, para o arranque de uma nova época. Mas, como disse, não deixa de ser curioso trabalhar um pouco com esses mesmos números.

Foi assim que cheguei a esta conclusão: partimos para a temporada de 2007 com a DUJA-Tavira a assumir-se como a 4.ª Grande do pelotão português. E como o Benfica só vai fazer sete corridas do nosso calendário… será a terceira, na maior parte da época.
Força aí algarvios marafados!...

O Algarve merece ter uma equipa assim.

quarta-feira, novembro 29, 2006

338.ª etapa


2006 - "RANKINGS" COLECTIVOS...

Terminada, há quase dois meses, a época já é altura de fazer contas. Quanto vale mesmo o nosso Ciclismo no quadro internacional? Pois bem, como todas as nossas equipas estavam inscritas no Circuito Europeu, olhemos então para os rankings finais da UCI.
Primeira constatação: Portugal terminou num sofrível 11.º lugar, entre 35 nações classificadas. Somámos 1199 pontos.

E quanto às equipas? Tivemos apenas uma no primeiro quarto do escalonamento europeu mas tivemos mais 5 na primeira metade. Não me parece tão mau assim.
Em 121 formações pontuadas, a Maia-Milaneza (656 pontos) foi a 25.ª classificada. Depois, entre as primeiras 50 tivemos ainda a LA-Liberty (33.ª), com 580 pontos; a Barbot-Halcon (47.ª), com 345 pontos; e a Carvalhelhos-Boavista (50.ª), com 330 pontos. Mas a DUJA-Tavira foi logo a 51.ª colocada, com 316 pontos.
Um bocado mais atrasadas aparecem-nos a Imoholding-Loulé (77.ª) e a Madeinox-Bric (78.ª) com, respectivamente, 151 e 146 pontos. A Riberalves-Alcobaça foi a 84.ª classificada (118 pontos) e, já no último quarto da tabela aparecem a Paredes-B. Tâmega (104.º lugar), com 37 pontos e a Vitória-ASC (32 pontos) no 106.º posto.

Já agora, e tomando como referência a pontuação conquistada por cada um dos seus corredores, em 2006, como é que ficaria o ranking nacional por equipas, para 2007?
Será assim:
1.ª, Benfica, 842 pontos
2.ª, Liberty, 763
3.ª, LA-MSS-Maia, 549
4.ª, DUJA-Tavira, 509
5.ª, Boavista, 226
6.ª, Barbot-Halcon, 223
7.ª, Madeinox-Loulé, 126
8.ª, Paredes-R. Móveis, 60
9.ª, Vitória-ASC, 58

É apenas mais um jogo de números, que vale o que vale. Mas dá para tirar algumas conclusões.

337.ª etapa


... E INDIVIDUAIS

No artigo anterior puderam ajuizar sobre o que valeu e vai valer (até ao dia em que se somem os primeiros novos pontos, que os rankings são anuais e recomeçam do zero todos os anos) cada uma das nossas equipas. E em relação aos corredores que vão formar o nosso pelotão? As contas são feitas com aqueles que já estão certos em cada uma das formações e, tal como disse no artigo anterior, são apenas números e… valem o que valem.

São estes os 25 corredores que este ano conseguiram as maiores pontuações:
1.º, Javier Benitez (Benfica), 207 pontos
2.º, Sérgio Ribeiro (Benfica), 202
3.º, Danail Petrov (Benfica), 198
4.º, David Blanco (DUJA-Tavira), 192
5.º, Bruno Pires (LA-MSS-Maia), 177
6.º, João Cabreira (LA-MSS-Maia), 158
7.º, Cândido Barbosa (Liberty), 145
8.º, Pablo Urtasun (Liberty), 131
9.º, Hector Guerra (Liberty), 112
10.º, Ricardo Mestre (DUJA-Tavira), 105
11.º, Jordi Grau (Liberty), 104
12.º, Manuel Cardoso (Boavista), 102
13.º, J. A. Pecharroman (Benfica), 99
14.º, Pedro Soeiro (Barbot-Halcon), 95 *
15.º, Pedro Cardoso (LA-MSS-Maia), 77
16.º, Rui Sousa (Liberty), 77
17.º, Martin Garrido (DUJA-Tavira), 75
18.º, Bruno Neves (LA-MSS-Maia), 71
19.º, Nuno Ribeiro (Liberty), 64
20.º, Carlos Pinho (Barbot-Halcon), 57
21.º, César Quitério (Liberty), 56
22.º, Jacek Morajko (Boavista), 56
23.º, José Azevedo (Benfica), 55 **
24.º, Tiago Machado (Boavista), 50
25.º, Krassimir Vasilev (DUJA-Tavira), 46

Destaque para os primeiros três lugares, preenchidos com corredores do Benfica, para o facto de a DUJA-Tavira meter um homem no top-5 e 2, no top-10 onde só cabem 4 equipas: Benfica e Liberty, com 3 corredores cada e Tavira e Maia, com dois.

* - Em relação ao Pedro Soeiro, somei aos 67 pontos, conseguidos no Circuito Europeu, os 18 conquistados no Circuito Americano. É, aliás, o único corredor português que pontuou em dois circuitos continentais diferentes.
** - Quanto ao Zé Azevedo, ele pontuou para o
ranking ProTour, que é diferente do dos Circuitos Continentais.

terça-feira, novembro 28, 2006

336.ª etapa


DA ENTREVISTA QUE POUCOS LERAM
À INSISTÊNCIA QUE NO CICLISMO "TODOS" SÃO BATOTEIROS...

Descobri, através do Blog do José Carlos Gomes (http://marginalizante-ciclismo.blogspot.com), uma entrevista do Record ao presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo (ver aqui e mais aqui), trabalho esse que, curiosamente, (ainda) não foi publicado no jornal físico, mas que está on-line na versão electrónica desde as 12.39 horas de sábado passado. E esse foi o motivo pelo qual só o descobri hoje, ao visitar o blog do José Carlos, pois eu sou fã incondicional dos jornais em papel.

O assunto da entrevista tem a ver com o doping.

Artur Moreira Lopes move-se com a cautela recomendada em trilho tão minado, e as suas palavras não vão agradar a todos, tomando como exemplo exactamente o comentário do José Carlos Gomes. Mas o que é que se poderia esperar?

Ainda assim, de tudo o que o presidente da FPC disse, o título escolhido pelo jornal, para a peça, agarra, tirando-a do contexto, uma frase que, lida assim, fere fundo. “O Ciclismo tem uma cultura de doping”. Apoiada num convincente: “Presidente da FPC reconhece…”

Mas reconhece o quê? “… que é a mais visada”.
Visada por quê, ou por quem?
“… nos escândalos da droga no desporto!”

Longe de mim querer pôr aqui em causa o trabalho de um colega de profissão (a peça não está assinada) mas é evidente que não domina, nem de perto nem de longe, o fenómeno doping.

Eu já aqui escrevi que falar sobre doping sem se estar minimamente preparado é muito arriscado. Mesmo que se tenha alguns conhecimentos, é andar no fio da navalha (lembram-se de eu ter escrito isto?), mas aconteceu.

Artur Lopes terá querido dizer que, no passado – leia-se anos 60 do século passado e daí para trás – o uso de estimulantes… ok, não tenho asco da palavra, em si: de doping, atingiu pontos elevadíssimos. Era um doping desregulado, em que cada um tomava aquilo que ouvira falar, que “dava força” e fazia-o amalucadamente. Quando “sentia” que naquele dia não estava bem, ou quando queria mesmo ganhar determinada etapa. Nem sabiam o que tomavam. Apenas que as pilulas amarelas eram boas para manter na cabeça a “vontade” de ganhar ou que as encarnadas davam cá uma “bomba” que ninguém o ia apanhar…
Corriam-se riscos inimagináveis. A começar pelo facto de se desconhecer o que se estava a meter no organismo. Alguns casos terminaram da pior maneira – já não estou a referir-me em exclusivo ao ciclismo nacional – tendo estado mesmo na origem de algumas mortes.

Ora, aconteceria isto apenas no Ciclismo? É que, gira a roda, a roda gira e é sempre o Ciclismo o apontado como a origem do Mal.

Aqui, Artur Lopes pretende vincar aquilo que muitos insistem em ignorar: foi o Ciclismo a primeira modalidade a tentar auto-regular-se. E, ainda hoje, é o Ciclismo a modalidade onde mais se avança nos controlos de detecção de produtos ou métodos proíbidos. Era esta a mensagem que ele queria passar. E basta olhar para os números que o CNAD disponibiliza regularmente. Números que têm de ser lidos de uma única maneira: a percentagem de casos revelados por número de controlos. É que não é sério agarrar, por exemplo, e num hipotético comunicado, num número de 7 ou 8 positivos em 700 ou 800 controlos (1%), colocando-o à frente de um número de 4 positivos, numa outra modalidade na qual foram feitos 40 controlos (o que dá 10%).

É um dos fenómenos que mais me intriga, este o de se sobrevalorizarem os casos positivos no Ciclismo ao mesmo tempo que se passa sobre números bem mais preocupantes noutra modalidades como cão por vinha vindimada.

Aquele “o Ciclismo tem uma cultura de doping” é uma frase assassina, que põe em causa toda uma classe e cola, irreversivelmente, a imagem de pantomineiros a todos os profissionais. E não só.

Depois – e o meu caro José Carlos Gomes perdoar-me-á o estar aqui a responder ao seu artigo (e não no seu próprio blog) – esta entrevista leva, a quem a lê, a perguntar-se: “mas que raio faz a federação para acabar com isto”?

Nesta parte, o presidente da FPC até deixa claras as posições da instituição. Impedir, com uma suspensão temporária, todo o corredor que apresente indícios de presumível uso de substância proibida – não foi citada, mas trata-se da EPO – fazendo com que, quem apresente um número elevado de glóbulos vermelhos continue (porque esta sanção já acontece) a ser considerado inapto par a competição. Como médico, Artur Lopes vai até um pouco mais além. É sabido que pode acontecer que esse aumento do número de glóbulos vermelhos aconteça endogenicamente – e não se fala, na citada entrevista, do uso, permitido, de Câmaras Isobáricas que só têm isso como objectivo. O médico avisa que se correm riscos e que, numa medida enquadrável na protecção da saúde do atleta, pode, ou devia-se, promover a mesma suspensão temporária de TODOS os casos de elevado número de glóbulos vermelhos. Ora, aqui está a novidade, e a parte da entrevista que merecia ser repescada para título.

O “doping” dos dias de hoje – ao contrário do que acontecia nos tais anos 60 do século passado – já não é o de efeito imediato. Para ganhar uma etapa. Aquela etapa, e para a qual o corredor, pela manhãzinha, engolia a tal pílula amarela ou vermelha…
Cairam dentro da alçada do controlo anti-doping as substâncias – e alguns métodos – que visam uma melhor e mais rápida recuperação dos esforços dispendidos no dia-a-dia, principalmente nas grandes provas por etapas.

Mas, recordo, é implicitamente aceitando que essas práticas têm um limite dentro do qual se podem aceitar, que a UCI obriga as equipas dos dois primeiros escalões a terem médicos a tempo inteiro. Para que não mais se volte à prática do “eu dei-me bem com isto… porque não experimentas também”.
Os médicos, para além do planeamento individual da carga de treinos dos atletas – porque todos são diferentes – têm também como missão a coordenação dos preparados recuperadores de fadiga para que fique salvaguardada a saúde dos mesmos atletas. E, ao contrário do que já li, também já houve clínicos suspensos pela UCI por causa de casos de positivos numa equipa. A responsabilização acontece e as consequências pagam-se. Em que outra modalidade isso acontece?

Por tudo isto, e volto a citar-me, falar, ou tentar falar de doping – sem o mínimo conhecimento de causa – é mesmo o caminhar sobre o fio da navalha. Um pequeno descuido e… é a morte do artista. O que me deixa cheio de brotoeja (vejam no dicionário alentejano-português) é o fanatismo pró-degradação de todo e qualquer corredor apanhado nas malhas do doping. Estranha forma de amar o Ciclismo.
Principalmente se tivermos em conta que aos exemplos vindos de outras modalidades se olha sempre com uma irritante bonomia.

E choca-se o José Carlos com o facto de “o presidente da FPC empurrar as responsabilidades para os outros”.
Mas, o que é que a FPC pode fazer, José Carlos? Que é que pode fazer mais do que aplicar “burocraticamente uma legislação inócua…”?
Assumir toda a comunidade de corredores como “batoteiros” e obrigá-los… sei lá, a cederem amostras do seu ADN? Plantar um vigilante 24 horas por dia junto de cada um dos corredores? O quê? Exactamente…

É que, por muito que custe aos don Quijotes de serviço, existe uma barreira, real e inalienável, que é a dos direitos fundamentais de qualquer cidadão. A começar por aquele que lhe garante a presumível inocência até que alguém consiga provar, em tribunal, o contrário.

Mas como é que, na opinião do José Carlos Gomes, o presidente da FPC empurra para os outros a responsabilidade de aparecerem na primeira linha da luta contra o doping?
Deduzo que na passagem, na entrevista, em que Artur Lopes diz que “os atletas têm que estar cada vez mais conscientes e devem colocar-se à frente com a bandeira da luta anti-doping…”

Ok!... E, decifrado, o que é que isto quereria dizer? Que um corredor actuasse como “bufo” no seio da sua equipa? Que se apressasse a denunciar que, em vez do tradicional bife com batatas fritas, os responsáveis pela sua equipa lhe administravam complementos vitamínicos e o obrigavam a comer alimentos ricos em hidrocarbonatos pelas 8 horas da manhã?

Aliás, e dando aqui um salto de cavalo (à xadrez), porque é que se insiste que o doping está institucionalizado no pelotão internacional quando, e a verdade (que é só uma) é esta, o que está em causa é o comportamento interno em duas ou três equipas?
Dou já exemplos. Mas que é mesmo já!
A Reinolds/Banesto/Caisse d’Épargne ganhou sete Tours (contando com o deste ano, que ainda não foi reconhecido a Oscar Pereiro). Ganhou em 1988, com Pedro Delgado, e depois com Miguel Induráin, entre 1991 e 1995… quantos casos de positivo são conhecidos envolvendo corredores desta equipa? E o caso de Lance Armstrong? Que ganhou, só à sua conta, outras tantas voltas a França?
A Rabobank, de Erik Dekker e tantos outros… quantos casos de doping já teve?
Ah!, pois é!
Temos a Phonak e a Kelme/Comunitat Valenciana… vá lá, também a Liberty, com Heras. E vamos julgar todos só a partir destes exemplos?
Mas porque é que na floresta se insiste apenas em ver a árvore morta?

Mas voltando à opinião do José Carlos.
“… em vez de atirar a responsabilidade toda para cima de quem mais sofre e daqueles que, mal ou bem, são os únicos castigados, ficaria melhor a um dirigente [Artur Lopes] pensar em outras alternativas e esgrimir mais ideias inovadoras e menos autocontentamento bacoco.”
Pois é!, mas… o quê? Abrir uma linha verde para receber denúncias anónimas? Mas será que acontece mesmo o que, sublimemente, vem a ser apontado e que tem a ver com a hipotética possibilidade de os corredores serem “obrigados” a sujeitarem-se a práticas menos lícitas por parte dos responsáveis pelas equipas?
Eh, pá! Eu já não digo nada. Mas ainda uso a cabeça para pensar… Um jovem acabadinho de chegar a uma grande equipa ainda pode ser que se deixasse levar por algum receio de ser “deixado para trás” se não colaborasse… mas, olhem à vossa volta. Os “casos” conhecidos envolvem, maioritariamente, corredores séniores, com palmarés, com capacidade para ganharem qualquer corrida, alguns pré-veteranos… com anos de carreira. Aceitariam isso que só poderíamos chamar de chantagem, por parte das equipas?
Elementar, meu caro Watson, diria o Sherlock Holmes. Se o doping está mesmo generalizado, então porque é que são sempre os mesmos a ganharem as corridas?
Se é o doping que os faz andar… então, eu, se também tomar, posso ganhar um Tour?

Esta Guerra Santa, assumida por pretensos amantes da modalidade que querem sangue custe o que custar, faz-me lembrar aqueles chefes de esquadras de polícia que, porque acham que não é possível uma patrulha voltar sem ter autuado ninguém – tantas são as infracções possíveis – preenchem o expediente com multas a quem só tem de parar por um minuto à porta de um logista cliente para descarregar uma saca de batatas. Não pôs a vida de ninguém em risco, não entrou em contramão… mas parou e fez com que uma pequena fila se somasse atrás da sua pequena camioneta, por isso é multado e, à noite, os polícias podem dormir de consciência tranquila pois passaram mais multas que a média da semana anterior.