
VOLTA - RESCALDO IV
E só resta falar alguma coisa da organização. Já aqui lhe deixei algumas críticas que, espero, sejam olhadas pelo lado construtivo, mas ainda falta falar de alguns outros aspectos.
Começando pelo princípio.
O traçado. Já disse que gostei dele. A história da chegada à Torre tem que ser resolvida, mas sei que a principal responsável por não haver na Volta a rainha das subidas não é a Organização. E como Joaquim Gomes explicou, ainda antes da corrida, a PAD não se pode dar ao luxo de arcar com todas as despesas inerentes a uma chegada. Como ele explicou muito bem, para ser a PAD a “pagar” a chegada à Torre teria de desviar para essa etapa 10% dos ganhos nas outras nove etapas e se ele diz que não há hipótese é porque mesmo as outras chegadas estarão ela por ela, no que diz respeito ao ganho e gasto. Não sobrará muito dinheiro. Não o suficiente para pagar essa tal chegada sem um forte patrocinador local.
O estranho é que seria possível juntar quatro autarquias (Gouveia, Seia, Covilhã e Manteigas) mais uma Região de Turismo para, com a contribuição de todos, se chegar à verba necessária. Mas, como já disse, o problema é mais complexo. Contudo, se o Joaquim Gomes praticamente assegurou que em 2007 há chegada na Torre é porque as negociações estão no bom caminho.
De resto, ficou demonstrado que os traçados das etapas foram, desportivamente, os correctos e proporcionaram uma Volta brilhante.
Só estive numa chegada, a de Lisboa, mas deu para perceber que reina por ali – no seio da Organização – alguma confusão, ao que não é alheio o facto de a “feira” ser armada no mesmíssimo local da chegada. Na Vuelta também há “feira”, mas se às vezes à partida não há grande preocupação em separar as duas coisas, essa separação é respeitada nas chegadas onde só há lugar para uma classe de artistas: os corredores. Escolhe-se sempre um outro local da cidade – e reconheço que em Lisboa não daria muito jeito, o que já fica mais fácil nas outras localidades, mais pequenas – para essa realização que, como já escrevi, é paralela à corrida em si, logo, jamais se deviam encontrar. É a definição de paralela. Até porque naquela zona há vários monitores pelos quais se pode seguir a corrida e a maioria dos “colunáveis” nem tem intenção de se misturar com o “povão” tentando ganhar o seu espaçozinho junto às barreiras.
É bom que esta iniciativa continue, que a organização tente alcançar uma maior visibilidade, oferecendo outra espécie de “atracções” que, não duvido, acrescentam um maior leque de potencial material informativo, mas já completamente à parte da corrida. Não “joga” esta mistura entre desporto, que é a corrida, e social.
Outra coisa que precisa mesmo ser mudada. Não se compreende o porquê de, para além das três rádios nacionais que cobriram o evento, tenham sido acreditadas mais… preparem-se: 33 estações locais. Se cada uma levar três pessoas – e há várias que levam mais – no final havia mais gente da Comunicação Social do que corredores.
É preciso adoptar-se em Portugal aquilo que a UCI e a AIJC aconselham.
O problema está mesmo em separar quem, eventualmente e pelo trabalho que mostra, possa vir a ter permissão para acompanhar a Volta e quem ali não tem lugar porque só lá vai passear o microfone. A cobertura da Volta acaba por ser um negócio rentável para essas rádios, e só por isso lá vão.
Mas a questão mais pertinente é mesmo: qual a da necessidade de rádios de Freixo-de-Espada à Cinta, de Alguidares de Baixo e de Alcabideche de Cima andarem na Volta? A maioria limita-se a por os microfones à frente dos corredores, não conhecem os corredores, não fazem mais qualquer espécie de tratamento informativo a não ser intervenções nos noticiários e depois “directos” das chegadas. A difusão da Volta, via rádio, está mais do que garantida com as três rádios nacionais que cobrem todo o País. Os outros não acrescentam mais nada, antes pelo contrário. Então, se não estão lá só para mostrar os microfones, andam a passear-se, mostrando os carros. Estão a auto-promover-se usando para isso a Volta. Não é esse o objectivo da Comunicação Social. Disse eu que fazem apontamentos nos noticiários… Pois! A maioria delas à hora certa põe no ar os noticiários, ou da RDP, ou da RR, ou da TSF. Podem, e devem, fazer o mesmo no ciclismo. Nomeadamente na Volta.
Com mais de 90 (!!!) jornalistas de rádios locais, aos quais há a acrescentar os da Imprensa, nacional e regional… em Bruxelas (foi enviado para a sede da AIJC o relatório obrigatório) vão ficar boquiabertos. E se fosse eu, pensaria: Caramba… os portugueses que não são empregados de mesa nas centenas de restaurantes no Algarve… são jornalistas!
Há ainda a questão de não se estarem a cumprir na íntegra os regulamentos para uma corrida internacional da Classe HC.
No Livro Oficial, e sendo que a tendência é para que se retirem os jornalistas da corrida, até porque o departamento de apoio à Imprensa funciona, falta a indicação de uma rota alternativa (a mais curta, ou mais rápida) de ligação entre a partida e chegada. Falta, no “mapa” das chegadas, a localização das Salas de Imprensa – eu tenho aqui duas dúzias de Livros Oficiais de corridas em Espanha, na Bélgica, em França e em Itália, posso mostrar –; falta um segundo livro com a listagem dos hotéis onde ficam as equipas, também ele com as plantas das cidades e a localização exacta dos hotéis. Para distribuir às equipas mas também aos jornalistas.
Houve falhas no posicionamento das “bandeiras amarelas” – viu-se na televisão –; foi grave o que aconteceu no “circuito" de Fafe, com os pórticos de aproximação à meta; quando uma corrida de bicicletas passa pela meta antes de a etapa terminar, funciona a regra das corridas em circuito: tem de ser assinalada, com um placarde e com um aviso sonoro – uma sineta – que falta uma volta para a etapa estar cumprida; os receptores de televisão, na Sala de Imprensa, têm que estar sintonizados ANTES de os jornalistas chegarem; tem que lá estar, em permanência, um técnico habilitado para resolver na hora eventuais problemas; as folhas dos Comunicados Oficiais TÊM de ser em papel de cores diferentes para o filme da etapa, para os resultados da etapa e para as classificações gerais; os comunicados são entregues às equipas, na noite anterior à etapa, DEVIAM ter a previsão meteorológica para o dia seguinte.
E o Fernando Emílio escreve hoje (ontem, que já é sexta-feira a esta hora) que devia haver um circuito de vídeo-conferência. Hoje em dia isso até já nem é tão difícil assim.
Na Vuelta, quando chego à Sala de Imprensa, às vezes antes ainda de a etapa ter começado, já se está a testar o circuito directo para a vídeo-conferência. Os jornalistas na Sala de Imprensa ouvem as perguntas dos colegas que vão à chegada, ouvem as respostas e podem fazer perguntas…
Enfim… há ainda uma série de coisas a fazer, e urge que sejam concretizadas. Algumas delas são tão fáceis de solucionar.
E pronto. Fico por aqui nesta análise, atrasada, é verdade, mas que, por isso mesmo, espero ter sido mais ponderada, àquela que foi a Volta mais espectacular dos últimos 16 anos.
Parabéns a TODOS os corredores, a TODOS os DD. Parabéns à Organização por aquilo que de bom já consegue mostrar. Deixei algumas críticas, é verdade. Tomem-nas como uma tentativa da minha parte para colaborar para que a Volta seja melhor a cada ano que passa.
Para o ano lá estarei.













Tenho seguido esta Volta como simples espectador. Atento, é verdade, mas só nessa condição o que me livra de ter de explicar aos leitores que não assistiram à tirada o que nela se passou. É que está, a cada dia que passa, mais difícil “ler” a corrida. Interpretá-la e contá-la.





