quarta-feira, maio 30, 2007

564.ª etapa


JÁ É INSANA A "SEDE" DE SANGUE

Noto que os esforços que venho a fazer não vêm a obter os resultados esperados. Sinto-me a pregar no deserto. Literalmente.

Quando se fala de doping, as pessoas – todas as pessoas, incluindo jornalistas – anseiam apenas por uma coisa: sangue. Querem ver cabeças a rolar. Querem os pelourinhos ocupados, as fogueiras a arder. E a queimar seja quem for.

Ainda hoje, num “editorial” li o quase lacinante lamento pelo facto de a Milram ter esvaziado o facto de Erik Zabel ter admitido o recurso a métodos proíbidos. Tendo em conta os actuais regulamentos que, os da altura em que ele "pecou"... ainda não o podiam prever, dado que o método era desconhecido.

Cansado, desmotivado, lembro-me da velha estória do lobo e do cordeirinho.

O primeiro, ainda que bebendo água do riacho, a montante do local onde o segundo bebia, acusou-o de lhe sujar a água. Este defendeu-se dizendo o óbvio… se estava abaixo, no sentido de onde a água corria, não podia estar a sujar a água que o lobo bebeu. E este logo disparou: se não foste tu, foi o teu pai.
É uma velha estória que aprendi em criança.
Ensinou-me que, quem procura um culpado o "acha" sempre. Mesmo que aquele o não seja.

Quem pode – ou julga que pode, e às vezes não pode, mas tem ao seu dispor, por exemplo, as páginas de um jornal – dita a “lei”.

Estou a ficar cansado!
Não compreendem, ou não querem compreender o que aqui escrevo. E parece que cada uma das minhas palavras só tem como objectivo atingir alguém. Que se julga inatingível.

Que ganharia eu com isso?

Não gostam dos meus comentários e pronto.
Ponto!

Noutro jornal, leio que 13 elementos de uma Selecção Nacional, numa outra modalidade, foram irradiados por recurso ao doping. Foi numa breve. Seis linhas e meia.
Mais ninguém achou o assunto digno de notícia.

Oiço, na televisão, quem tente “descobrir” quem terá sido o vencedor do Tour de 1996. Bjarn Riis admitiu ter usado um produto que – chamo a atenção para isto (embora não pretenda ser eu a esvaziar o grave da questão) – ainda não era conhecido, logo… não constava da lista dos interditos. E depois esse mesmo alguém desfila os nomes dos que se lhe seguiram, em 1996 (!!!) na classificação que, NEM ACUSARAM NADA, NEM ADMITIRAM NADA.

Apenas estão envolvidos em processos bastante posteriores a isso.

MAS SÃO CONSIDERADOS CULPADOS DESDE ESSA DATA.
Tanto que, ao que me lembro, as contas já iam no sexto classificado.
(Se não foste tu... foi o teu pai!)
Mas porquê?
Em que se sustentam estes argumentos?
Em nada. Coisa nenhuma…
Népias! Nada!...
Só na mórbida vontade de quem, achando-se "acima de quaisquer suspeitas" quer é ver TODOS OS MALES DESTE MUNDO expirados... por um Corredor de Ciclismo.
Um qualquer.
Um não!
Muitos...
Todos...
TODOSSSSSS!...
Os profissionais de Ciclismo estão a ser trucidados por uma máquina que enlouqueceu.

Preparem-se que vem aí outra das minhas comparações malucas…

Um bando de analfabetos (analfabetos, hoje, agora, aqui…), puxa dos galões e quer ser juíz dos erros de ortografia que outros terão cometido há… 10 anos!
Mas eles continuam analfabetos.
(Não confundam isto com a terrível relação que alguns continuam a manter com a Língua Portuguesa! – era apenas um exemplo!)

Do tal “editorial” tirei aquilo que já escrevi: o problema não é o da possibilidade de existir doping; o problema é haver ainda pelourinhos sem ninguém a eles acorrentado; haver fogueiras lindamente viçosas… e não haver quem se possa atar ao tronco de forma a que seja queimado.

E procura-se. Em todo o lado, na mais pequena notícia.
NÃO!...
Não venham com ideias estapafúrdias.
TEM que ser um ciclista!

A coisa está a descambar para o irreal. E, como respondi, há uns dias atrás, a um amigo que comentou um dos meus artigos, a verdade é que eu já não sei como falar de doping, como explicar o doping
(Ah! tem explicação, tem sim senhor... Se até a vossa santa ignorância o tem!...)

Mas voltando atrás... já não tenho força e começa a faltar-me a vontade de o fazer, não ante uma plateia que não quer outra coisa que não seja… sangue (por mais infeliz que seja a comparação!).

Sangue de Corredores.
De profissionais.
Que obedecem a quem lhes paga.

Cheguei à conclusão – hoje, com aquele “editorial”, cheguei – de que há gente que, se calhar até gosta de Ciclismo, mas abomina os Corredores. Se é que aqui pode haver alguma ponta de coerência.
Não há, pois não?

1 comentário:

Carlos José Matos disse...

Caro Manuel Madeira,

Infelizmente, o público e todos aqueles que pretendem, ou melhor, afirmam saber de ciclismo, só querem que haja espectáculo e que não haja práticas ilegais.

Contudo não se apercebem que é o exigirem ESPECTÁCULO que leva a que alguns corredores (o principal motivo do Ciclismo) a recorrerem a práticas ilícitas ou menos correctas.

Continue a divulgar o Ciclismo, com o bom e o mau que este tem. Continue a lutar pelo que entende, e tem esse direito pelo tempo e quilómetros que leva de Ciclismo, ser o melhor para esta modalidade que muitos adoram....

Adoram..... Alguns parece que já não. O "Sangue" que parece que todos querem, vai fazer que, mais cedo ou mais tarde, fiquem no Ciclismo aqueles que realmente querem o bem desta modalidade.

Não desista de lutar por um Ciclismo melhor. (As suas ideias de reformulação da estrutura do Ciclismo em Portugal são um grande exemplo do facto de conhecer o Ciclismo, quer Nacional, quer Internacional)

Quanto ao Doping, há-de sempre existir.

Em relação às modalidades, é pena que só o L'Equipe entenda que estas também são desporto e que os jornais "desportivos"(?) nacionais só pensem naquele que se diz o desporto do povo (o que eu sei é que foi o ciclismo que levou as pessoas a serem do Benfica ou do Sporting, com o Nicolau e o Trindade, inicialmente, e com muitos outros ao longo dos anos, Mendes/Agostinho...)

Abraço

Carlos José Matos