DESCULPA TIAGO,
ESPERO NÃO ESTAR A PREJUDICAR-TE
Após quatro meses e meio de silêncio, depois de eu ter transcrito aqui um texto que fora publicado no sítio oficial da sua equipa, hoje, finalmente, soubemos que o Tiago Machado foi castigado pelo CD da FPC em cinco meses de suspensão por ter faltado a uma convocatória para integrar uma Selecção Nacional.
Permitam-me um ligeiro desvio ao assunto, de forma a conquistar uma pequena base de sustentação para os meus argumentos.
No futebol, onde – acho eu (embora não ponha o pescoço no cepo por ninguém) – todos sabem que há apenas 17 regras, costuma-se dizer que a mais importante é a décima oitava.
Coisa estranha, olhada assim.
Como é que pode a 18.ª ser a mais importante se só há 17?
Grandes nomes do nosso jornalismo desportivo (ok, jornalistas de futebol, para sustentar o caso), gente que, pela sua cultura desportiva e não só, que com uma irrepreensível neutralidade – o que hoje é cada vez mais difícil -, abreviando num nome, o do Vítor Santos, por exemplo, naquelas suas duplas páginas – sem fotos ou ilustrações -, onde o que valia e valia só por si, era a opinião de um JORNALISTA que ninguém se atreveria a contestar (porque não havia margem de manobra para isso), instituíram essa tal “lei” ausente dos regulamentos.
A Lei do Bom Senso.
E é de bom senso que aqui venho falar. Sendo que sei perfeitamente que essa coisa do Bom Senso é algo que tende a ser superiormente apagado e veja-se o caso da malfadada ASAE.
O seu director é tão cego que, se por acaso alguém se tem lembrado de pôr na Lei que para ser reconhecida, a nossa assinatura teria de ser feita com tinta rosa-choque, ele nem hesitaria e lá se ia o negócio das esferográficas de tinta azul ou preta.
Isto é falta de bom senso.
Recuperemos então o tema desta opinião.
Opinião, repararam?
É a minha e apenas me vincula a mim.
.
Quem foi, durante as duas últimas temporadas, o melhor Corredor português com menos de 23 anos? Não, desculpem lá, mas recorram aos vossos apontamentos que eu não vou aqui escalpelizar os resultados conseguidos pelo Tiago Machado.

Alguém consegue arranjar argumentos que contrariem isto?
Claro que não! Pergunta parva, a minha…
Cinjamo-nos aos factos.
O Tiago que, mais uma vez, fez uma extraordinária Volta a Portugal e que sonhava poder apresentar-se ao seu melhor nível nos Campeonatos do Mundo, tenha ou não sido aconselhado por terceiros, comunicou ao Seleccionador Nacional que, estando numa fase de necessária e compreensível descompressão, após a Volta, não sentia que, fisicamente, pudesse ser uma mais-valia para a Selecção Nacional que ia disputar a Volta a França do Futuro.
Aliás, acho eu, Manuel José Madeira, que devidamente atento às prestações dos Corredores passíveis de serem convocados, o primeiro a aceitar aquele argumento deveria ter sido o Seleccionador Nacional.
A (quanto melhor possível) participação na Volta a França do Futuro era algo de carácter decisivo para a nossa presença nos Mundiais, mas se o Tiago lhe comunicou que precisava de algum espaço para destressar e reganhar fôlego, e tendo em conta a categoria do Corredor em causa, o José Poeira só poderia ter feito duas coisas:
ou nos demonstrava que percebe, de facto, alguma coisa de Ciclismo – a tal regra do bom senso - ou, de imediato denunciava a quem de direito – mas não é ele o Seleccionador Nacional? – a “recusa” do jovem boavisteiro.
Provavelmente, mesmo contrariado, o Tiago, que queria mesmo estar nos Mundiais, informado que a não ida a França significaria o afastamento de Estugarda, teria feito das tripas coração e ter-se-ia apresentado.
Mas não...
Posso eu dizer que houve má fé por parte da FPC, em relação ao Tiago Machado?
Reconhecê-lo significaria um ónus dificilmente defensável por parte da instituição.
Mas não foi o que aconteceu?
Partimos para França com menos um elemento – prejudicando intencionalmente outro jovem Corredor que poderia ter tido a chance de representar Portugal -, escondendo, ao mesmo tempo, que o Tiago não perderia pela demora.
Iam-lhe fazer a folha um mês depois.
Como fizeram.
O que é que as DUAS Selecções nacionais ganharam? Nada!
O que é que a federação ganhou? Nada!
Era bom que alguém lhes viesse a perguntar qual o interesse que a FPC teve em apresentar DUAS selecções abaixo da qualidade que poderiam ter mostrado.
Só para castigar o Tiago Machado?
Honny Soit Qui Mal y Pense.
E não, professor José Santos, eu não me passei, definitivamente, para o seu lado, mas tenho a coragem suficiente para escrever o seguinte: se o Tiago fosse de outra equipa… teria isto acontecido?
Pois é...
Aí estamos de acordo. Sem hesitações.
Tramaram o Tiago e beneficiaram de uma crítica amorfa, hipotecada até, que não soube ou não quis ler o que estava perfeitamente claro.
E o exemplo é sublinhado pelo que comecei por escrever.
O sítio oficial da equipa perguntava-se porque é que o processo estava a levar tanto tempo, provavelmente ainda há muita gente que desconhece a página mas, ao transcrever para aqui o desabafo lá colocado… 72 horas depois saiu o resultado do inquérito.
Cinco meses de castigo por o Corredor, convocado por telefone, ter manifestado, através de um telefonema, a sua intenção de renunciar à Volta a França do Futuro porque estava focado nos Mundiais.
E só soube que não ias aos mundiais uma semana antes, quando leu nos jornais o nome dos convocados.
Ok… há, há mesmo, um artigo nos regulamentos que obriga os Corredores a responderem por escrito no caso de não estarem disponíveis para a Selecção!
Agora... não, não irei pedir à FPC que me mostre – e enquanto Instituição de Utilidade Pública, e solicitado esse pedido por um jornalista, teria que o satisfazer – os documentos escritos por todos os outros Corredores que seriam seleccionáveis - não estou agora a falar dos sub-23 - e que, se o não foram, só pode ter sido com um pedido de escusa.
Esta merda é fodida!
Ser sério, definitivamente não basta; é obrigatório que se pareça ser sério também.
E não creio que tenha havido seriedade neste processo contra o Tiago Machado.
Acumulam-se os tiros nos próprios pés.
Até quando?