segunda-feira, março 13, 2006

25.ª etapa


Em Espanha, os jornalistas especializados já o fizeram estampar em títulos a toda a largura da página: Maldito "pinganillo!..." (é o termo castelhano para o nosso auricular).
A invenção da rádio-comunicação entre corredores e carros-de-apoio sendo de extrema utilidade em muitas situações de corrida, por outro lado amarra atletas valentes às indecisões e falta de audácia de muitos técnicos.

Os espanhóis não tiveram complexos em o denunciar. Por cá ainda se cultivam (malgrado o desagrado público de alguns intervenintes no espectáculo, que esgrimem o contrário) os paninhos quentes. Até um dia. Que pode ser este.

Lembro-me perfeitamente de, há 15 anos atrás, quando começaram a vir a Portugal, mais regularmente, equipas estrangeiras, ao fim de dois dias já todos olhavam à volta, com uma certa angústia no olhar e se perguntavam: "Mas atrás de quê correm estes portugueses? Que atacam ao km zero e perpectuam os ataques até ao final da etapa?"

Assim era. Parecia (e era, convenhamos que era) uma corrida de loucos, sem nada de perjurativo. Eram, em definitivo, corridas sem nexo, vazias de estratégia pelas quais os principais responsáveis eram os corredores porque os técnicos, na altura e salvo raríssimas excepções (e já escrevo assim para evitar ferir susceptibilidades), não tinham mais do que conhecimentos empíricos de como se orientava uma equipa na estrada. As equipas (e não eram mais de uma ou duas) com pretensões a ganhar as corridas apostavam claramente num homem e os outros só tinham que trabalhar para ele, tentando que nenhum dos "gloriosos malucos das fugas" conseguisse os seus intentos.

E como nas demais equipas - e até dentro da mesma equipa, em diversos casos - havia homens com sangue na guelra, que iam desde os jovens a querer dar nas vistas aos mais veteranos e, entretanto preteridos nas equipas de maior nomeada, a quererem mostrar que ainda ali estavam para as curvas... candidtos a fugitivos não faltavam. E mal uns eram apanhados logo outros fugiam naquilo que ali ao lado, em Espanha, ganhou mesmo "rótulo": era o correr à português. Aos esticões. Com abissais e desgastantes variações no ritmo da corrida.

Como sempre andámos atrasados (não só no ciclismo, mas no plano geral, no País), passados os primeiros dias - e refiro-me concretamente às voltas a Portugal - os estrangeiros acabavam por impôr a sua ordem e, enquanto, lentamente faltava o azeite nas lamparinas dos corredores lusos, os convidados acabavam por vencer. Até com 58% te taxa de hematócritos, coisa que por cá olimpicamente se desconhecia.

Mas convém esclarecer uma coisa. Aquela maneira de correr (aos esticões) tinha uma única origem: a iniciativa individual dos corredores. E eu próprio testemunhei, à noite, nos hotéis, valentes puxões de orelhas por parte de alguns técnicos a corredores seus que furavam a estratégia que ele havia desenhado.

E é qui que reentramos na história do "pinganillo".

Hoje, ligados por invisível cordão umbilical ao carro-de-apoio, falta liberdade aos corredores. Claro que ainda há equipas que outro objectivo não têm que mostrar a cor dos equipamentos, logo, as fugas, mesmo à maluca, ainda continuam a acontecer, mas a grande maioria dos corredores fica presa à ordem que há-de, ou não, ser-lhe sussurrada ao ouvido, via-rádio, pelo seu director-desportivo.

E há quem fique mudo. Durante toda a etapa. Durante toda a prova. Durante toda a época. Ou se dizem alguma coisa é para... que fiquem quietos, que cabe sempre aos outros atacarem; cabe sempre aos outros perseguirem; cabe sempre aos outros agitar a corrida.
"Nós vamos esperar para ver..."

Maldito "pinganillo"!..., dizem os espanhóis.
Eu só assino por baixo.

E termino com uma "adivinha": Quem foi o corredor, na altura, que numa iniciativa puramente pessoal resolveu fazer pela vida e arrancar Serra da Estrela acima a caminho daquilo que viria a ser uma gloriosa jornada e ciclismo que culminaria com a sua vitória na Volta a Portugal e que, ainda a caminho das Penhas da Saúde, farto do sussurrar cheio de cautelas do seu técnico arrancou, num gesto que ficou célebre, o tal "pinganillo" e mesmo o pequeno receptor e os atirou para a valeta?

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