sábado, março 25, 2006

40.ª etapa



CORRIDAS PRO-TOUR EM PORTUGAL

Num outro sítio português onde se fala de ciclismo, surgiu em discussão a pertinência, ou não, de poder vir a existir uma corrida Pro-Tour em Portugal.

Ressalvo aqui que a ideia do ProTour não acolhe a minha concordância. É, a um outro nível, mais uma ideia para uns quantos ganharem dinheiro sendo que, quem sai prejudicado é o ciclismo em geral, mas passo à frente.

Claro que, já que existe e nos rouba a possibilidade de ver, de outra forma, as grandes equipas e os melhores corredores, uma corrida ProTour no nosso país seria sempre benvinda.

Uma prova de um dia, por exemplo, não custava tanto a montar e reduzia os encargos e o Porto-Lisboa - aproveitando a ideia de um colaborador, no tal site - podia ser uma excelente escolha. Os 350 km ultrapassam o limite de km regulamentados. Mas há muitos caminhos para ligar as duas cidades e se começasse em Espinho e terminasse em Torres Vedras ou Vila Franca de Xira nada nos impedia de chamar-lhe Porto-Lisboa já que ligava as duas grandes áreas metropolitanas nacionais.

Agora, é evidente que os amantes do ciclismo em Portugal iam gostar de ver passar os Boonen, os Bettini, os Boogard, os Petacchi, os Óscar Freire e os seus companheiros de equipa.

Esta questão faz-me recordar a polémica em que, sem eu querer, fui envolvido em 2001 em vésperas dos Mundiais de Lisboa quando um dos colegas que eu mais respeitava resolveu fazer o funeral à prova ainda antes de ela ter ido para a estrada. Ainda hoje estou à espera de que, tal como prometeu na altura, ele se retracte porque Lisboa não teve menos gente que, por exemplo, Zolder, onde eu estive em 2003. E estávamos na Bélgica.

Contestou-se, na altura, a localização dos Mundiais. As imagens televisivas - porque eu estava no Centro de Imprensa - mostraram que, afinal, o circuito não esteve vazio. A maioria eram estrangeiros? Mas não é culpa da FPC que os portugueses - talvez habituados à batida e rebatida "máxima" de que o ciclismo é uma modalidade que vai a casa das pessoas -, não se tenham deslocado a Lisboa. Não vieram porque não quiseram. Em termos físicos (do traçado) foi quase unânimemente reconhecido por esse Mundo fora como os melhores desde há muito. E foram-no, de certeza, em relação aos outros dois que tive a felicidade de cobrir. E em termos de organização não ficou nada atrás.

Mas a outra questão, então levantada, era a de "que benifícios colheria Portugal com a sua realização". Ou que o ciclismo português colheria. Não sei se a medalha de prata de Sérgio Paulinho nos Jogos Olímpicos de Atenas pode ser dissociada disso; como a de bronze conquistada em Zolder, ele que, em Lisboa assinara a melhor classificação de sempre de um português nuns mundiais.

E na altura eu perguntei que reflexos teve no ténis português a realização, no mesmo ano, dos Masters, no Pavilhão Atlântico. Ainda estamos à espera para perceber. Felizmente, no ciclismo há exemplos concretos.

Sem me querer imiscuir em áreas que não são, de todo, as minhas, por aquela ordem de razões não valia a pena trazer a Portugal nomes como Luciano Pavarotti ou José Carreras, ou as grandes bandas musicais que ganharam o seu lugar na história.

Uma prova do ProTour em Portugal não seria nunca para o Clube de Ciclismo de Ferrel conseguir melhores patrocínios no ano seguinte, mas para que o público, embalado pela "febre" de ter visto um grande espectáculo despostivo, neste caso velocipédico, na corrida seguinte voltasse à estrada. E nas outras a seguir. Não é para ver as equipas portuguesas perderem corridas para formações sub-23 holandesas que o povo se deslocará mais que os 50 metros que vão da porta de sua casa à chegada. Isso é que não.

E quem não perceber isto...

Vem a propósito, diz o meu amigo Paulo Sousa que "no Lisboa-Dakar ainda havia 28 equipas portuguesas!..."

Paulo, a sério, achas que as pessoas foram ver passar os portugueses? Achas até que os descobriram no meio dos outros? Claro que não. Pois não?

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