sábado, março 25, 2006

38.ª etapa



VALE (QUASE) TUDO...

Prometi no artigo anterior explicar o porquê da ânsia de muitos em ter, de novo, a Volta com mais dias. Os acordos estabelecidos pela UCI, e com os quais a FPC é solidária (como as outras federações nacionais) limitam os dias de corrida em cada uma das categorias de prova e as excepções vigentes contam-se pelos dedos de uma mão... mais um - voltas à Alemanha, Polónia, Suíça e Romandia e Paris-Nice (todas Pro-Tour) e Volta a Portugal. Todas as outras corridas, exceptuando as Três Grandes, têm cinco dias (havendo, é verdade, casos excepcionais, mas tratados ano a ano).

A Volta a Portugal, na Categoria 2.1 teria 5 dias. Seis, se isso fosse negociado. A Volta a Portugal despromovida a prova nacional, para o quadro .12, não poderia ter mais de 9 dias! Não sei onde se vão buscar os 14 dias reinvidicados. A não ser que se ousasse por na estrada uma corrida fora da alçada da UCI que nunca poderia ser homologada, nem pela Federação Portuguesa de Ciclismo. Está nos regulamentos.

E 14 dias para quê? O argumento de cobrir o País do Algarve a Trás-os Montes é falacioso. É impossível traçar uma Volta que seja digna desse nome sem passar pela Serra da Estrela e pela Senhora da Graça, logo, e como as quilometragens também estão determinadas (vêde os tais regulamentos, que são assim como a Constituição do Ciclismo), dois terços da Volta têm sempre que ser cumpridos a Norte do Rio Tejo.

Então, os três dias a mais - tinha sempre que haver uma jornada de descanso - vinham acrescentar o quê?

Passemos à explicação.

As organizações de provas UCI têm, como uma das obrigações, assegurar às equipas participantes o pagamento dos km que fazem desde o local da sua sede e a localidade onde se inicia a corrida, e o mesmo em relação aos km desde o local do final da mesma corrida e a mesma sede. Têm que suportar o combustível gasto durante a corrida e garantir o alojamento e duas refeições por dia a todos os elementos que compõem a equipa.

Aqui ao lado, em Espanha, nem é preciso lá ir, basta ver os livros oficiais das corridas, em todas as etapas está estipulado o posto de venda de combustível onde TODOS terão que se abastecer. É evidente que a organização formalizou um acordo seja com o revendedor (menos habitual) ou com a marca distribuidora (o que é a regra).

Depois, TODAS as equipas são colocadas em hoteis escolhidos pela organização (dentro do mesmo esquema). Ganham as equipas, para além de eventuais prémios conquistados na estrada, as diárias que também estão regulamentadas, indexadas ao números de corredores em prova que, por sua vez, condicionam o número de acompanhantes.

E o que é que acontece em Portugal? Nos últimos anos apenas uma ou duas equipas cumpriam o regulamentarmente estabelecido (com a excepção do abastecimento de combustível que, nos tempos do JN se cumpria mas agora parece que caiu em desuso), tendo a Associação de Equipas Profissionais (que é como a pescada, anter de o ser já o era!...) a preocupação de negociar no início da temporada a substituição das pernoitas e alimentação por subsídios equivalentes.

E o que acontece depois? Manda a UCI que as organizações proporcionem às equipas o melhor alojamento possível, tendo em conta que em diversas zonas, de todos os países, nem sempre é possível encontrar hotéis de 4 estrelas suficientes para albergarem toda a caravana.

Em Portugal, e com o conluio das organizações - com a excepção da Volta ao Algarve - aceita-se isso e entrega-se às equipas o montante equivalente à estadia nos melhores hotéis da zona onde terminam as etapas. E o que acontece? Acontece que a grande maioria, já que está por conta própria, escolhe unidades de categoria inferior, ou outras com as quais já têm acordos particulares e... guardam o resto do dinheiro. Que não raro é introduzido no orçamento anual como... proventos.

Pode não parecer muito, mas em Agosto, com diárias, nos hotéis a 150 ou 200 euros, vezes 16 elementos, vezes 14 dias dá qualquer coisa como, entre 33.500 e 45 mil euros. Metade da carga salarial anual contratada com o plantel. Se conseguirem dormir e comer por metade daquele dinheiro, só na Volta pagam o salário anual a metade do plantel.

Uma Volta com 28 dias é que era!...

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