sábado, setembro 01, 2007

836.ª etapa


... E FIQUEI DUAS HORAS DE OLHOS
PREGADOS AO TELEVISOR!

Abro com uma confissão que deixará alguns… confusos.
Assisti, hoje, pela primeira vez, a uma prova de triatlo. Todinha. Desde o mergulho daquela mole de atletas – quantos seriam? – para as águas de um dos canais de Hamburgo (que, por acaso, não estavam menos sujas – assim pareceu – que as do Tejo, na zona da Expo há uns meses atrás) até que, isoladíssima, a Vanessa Fernandes parou junto à fita de chegada, a agarrou, “arrancou” e gritou um perceptível “Yessss!!!...”, embora o som da sua voz não nos tivesse chegado.

E o que é que isso tem assim de tão estranho?
É que, pelas funções que desempenho no meu jornal fui, a pouco e pouco, tentando assistir às mais diversas modalidades. Deformação profissional!
E é verdade. Do triatlo nunca tinha visto mais que os curtos segundos que, felizmente, de quando em vez os telejornais mostram, sempre pela mesma razão: mais uma vitória desta menina de ouro do desporto português.

Claro que sei da modalidade o essencial para poder medir a sua importância. E sei de cor os nomes das suas principais figuras mundiais, aquelas que podem fazer frente à nossa Vanessa. Sei que não havia motivo para ficar preocupado com o facto de, na primeira transição, a Vanessa não ter sido das primeiras porque sei que é no Ciclismo que ela se transforma na grande candidata. E hoje fiquei a saber que na corrida é também das melhores. Como fiquei a saber a forma inteligente como sabe gerir a sua prova.
Viu-se. Vi.

Fiquei de boca aberta ao ver como em menos de uma mão de segundos se desfazem do fato isotérmico – o que, sinceramente, me parecia ser tarefa para um minuto bem gordo – correm os metros regulamentares ao lado da bicicleta e depois lhes pulam em cima. Como os sapatos de ciclismo estão na bicicleta e é em andamento que lá enfiam os pés desnudados e apertam as cintas de ajuste. Como guardam nos ajustados maillots algum alimento que vão consumir nos 40 quilómetros de Ciclismo…

E aqui entra a estratégia. Sabedora de que a sua principal rival, a australiana Emma Snowsill, se atrasara, rapidamente a Vanessa assumiu o comando da “fuga” do mini-pelotão com o evidente intuito de cavar, logo ali, alguma distância, ganhando-lhe vantagem.

Da corrida de Ciclismo não esperava, de facto, uma cavalgada louca, do tipo dos gloriosos malucos das fugas impossíveis, na modalidade clássica, e não me saía da cabeça que antes, e sem um intervalozinho para descanso, aquelas mulheres tinham nadado 1500 metros. E que ainda ficariam a faltar mais 10 quilómetros de corrida. Sempre sem interrupções.
É uma modalidade dura, esta a do triatlo!

Na parte final – ainda no Ciclismo – pareceu-me que o grupo da frente acalmara de mais. E acalmou. A prova é que, a maioria das 13 que seguiram sempre na frente acabou ultrapassada por atletas que fizeram o sector do Ciclismo no grupo perseguidor. Mas não para a Vanessa Fernandes.

Surpreendi-me outra vez com a destreza com que penduram a bicicleta – antes de chegarem ao fim deste sector já os pés iam desnudados outra vez – e calçaram os sapatos de corrida que se apertaram nem deu para ver como…
E com a facilidade com que a Vanessa impôs um ritmo arrasador descolando as poucas adversárias que ainda iam na frente para, na prova de corrida fazer então… um contra-relógio. Dez quilómetros! Depois de 1500 a nadar e mais 40 a pedalar. Que a Vanessa cumpriu em menos de duas horas. Nas calmas, apesar de a australiana, mostrando que também é uma grande campeã, ainda chegou à medalha de prata.
E a forma como todas iam ficando logo após a linha de chegada, cumprimentando e, adivinho, incentivando e dando os parabéns às que iam chegando.

Por tudo isto, e apesar de, como escreveu o Jorge, só um terço – em quilómetros é mais… – esta modalidade se andar de bicicleta, também achei que este título mundial da Vanessa cabia aqui no VeloLuso.
O Jorge ganhou-me ao sprint. Também… não sei nadar nem… andar de bicicleta! :-)

A Vanessa é filha de Venceslau Fernandes, um dos nomes imortais do nosso Ciclismo. Conheci o Venceslau há dois anos, no Fundão. Naquela etapa que estava prevista para ir em direcção a Manteigas para, daí, se subir até Piornos a caminho da Torre (de passagem, porque a etapa acabou em Gouveia).
Equipado a rigor, seco de carnes, como sempre foi, levava um saco de… pão.
Estava – acampado, deduzo (senão para que seria o pão?) – na Covilhã, mas ir ao pão ao Fundão era uma boa desculpa para o treino diário de bicicleta que ainda faz.
Quase sempre – quando ela não está no Centro de Estágio da Cruz Quebrada – com a filha.
É um homem simples, simplicidade que a Vanessa herdou. Isso e os genes de campeã.
Uma grande Campeã.
E, em apenas uma semana, Portugal ganhou dois campeões mundiais.
O Outro foi Nélson Évora.
Parabéns para eles.

Nota: Ao fim de os comentadores se terem cansado (e cansado a mim) de dizer triatleta lembrei-me do dilema que tantas vezes sofri, em conjunto com o João Amaral (revisor de textos, n’A BOLA). A dúvida levantou-a ele. Em nenhum dicionário havia a palavra triatleta e a verdade é que isso de ser três vezes atleta (triatleta) se encaixa na realidade, mas não haveria outra maneira de definir o praticante de triatlo? Discutimos isto tantas vezes até que um dia ele me chamou ao andar de baixo. Tinha encontrado uma definição menos… confusa.
“Madeira –
disse-me eleTRIATLISTA. Como ciclista, ou barreirista, no atletismo… que achas? Concordas?”
Concordei. Triatlista passou a ser.

Sem comentários: