quarta-feira, julho 26, 2006

167.ª etapa



PARABÉNS AOS DOIS



Esta tarde, daqui a pouco menos de 3 horas, o meu querido amigo Guita Júnior, o homem que mais voltas a Potugal seguiu como repórter, tendo, inclusivé, nos anos 60 do século passado, sido o responsável pela sua organização, lança em Lisboa o livro "História da Volta a Portugal". Um livro que, mais do que coligir dados estatísticos, terá nas suas páginas recortes da vida de um homem que vive e respira ciclismo. Alves Barbosa e Marçal Grilo colaboraram na feitura do livro. O primeiro português a participar no Tour, tendo logo ficado na 10.ª posição, é um "contador de histórias". Um homem ainda cheio de vida e com um percurso ímpar no mundo do ciclismo nacional; o professor Marçal Grilo é uma "descoberta" mais recente, mas também ele já demonstrou a paixão que nutre pela modalidade. Será, tenho disso a certeza, um livro que todos os que gostam de ciclismo não deixarão de querer ter nas suas estantes.

Entretanto, também já está aí a "rebentar", se é que não está já à venda, o livro que tem Vítor Gamito como protagonista. Ainda não o vi. Sei que foi escrito por dois jovens jornalistas ligadados à modalidade, jornalistas do quadro da SuperCiclismo, e será, sem dúvida, mais um documento a não perder. Gamito, embora muito mais jovem, tem também muito que contar sobre a modalidade. Ele foi sempre uma figura de vanguarda. Num mundo que, na altura, ainda era dominado pelo empírico, muito jovem ainda já Gamito se distinguia.
Recordo uma das muitas reportagens que fiz na Quinta da Chapuceira, onde ficava o Centro de Estágios da extinta Sicasal-Acral. Depois do almoço que compartilhei com a equipa - um grande, grande abraço a outros dois grandes amigos, o Manuel Graça e o António Carlos - os corredores tinham uma hora ou duas para fazerem a digestão, antes de mais um treino e disputavam a mesa de snooker. Todos menos um. A um canto o Vítor ligava o seu computador portátil - ainda não eram tão vulgares como hoje - e mostrou-me gráficos de planeamento de treinos e curvas de rendimento. Coisas que actualizava diariamente.
Estava até, não sei se ele se lembrará, a "desenhar" uma bicicleta ideal no seu computador.

Tinha vindo de um ano sabático, em consequência de um grave acidente que sofrera e, sei que foi num Grande Prémio Correio da Manhã e que foi um contra-relógio na Marinha Grande. O ano já me escapa, por entre os muitos que já levo nesta vida (1993? 94?). Gamito pulverizou todos os tempos e envergou ali a camisola amarela. Junto de mim estava Orlando Alexandre, que já o tinha treinado e viria depois a ganhar a Volta com o mesmo Gamito, em 2000. «Grande surpresa, heim!?», disse eu a Orlando Alexandre que me respondeu: «Para mim não. Estamos na presença do melhor corredor português na actualidade.»

Provavelmente esta história até nem terá sido aproveitada no livro, mas outras haverá, concerteza deliciosas. Como aquela do dia da Torre em que, a dado momento, e em plena zona chave da subida, o Vítor arrancou o "pinganillo" da orelha, desfez-se, inclusivé, do receptor que o ligava ao carro de apoio, cerrou os dentes e foi, imperial, ganhar a etapa e a Volta desse ano.

É pouca e nem sempre com a qualidade que se desejaria a bibliografia que foca o ciclismo português e é importante que saiam livros a contar a realidade da modalidade, mesmo que seja através de episódios desgarrados. Porque, no caso da "História da Volta a Portugal" muitos dos que a viveram já não estão entre nós e há toda uma geracção que desconhece pura e simplesmente capítulos importantes que a marcaram. E que todos devemos saber para que a memória não se perca com os que se vão.

Claro que ainda não vi o livro do Guita Júnior, mas tenho a certeza de que lá não faltará uma das histórias mais incríveis que já se viveram na nossa grande volta. Quantos sabem que houve uma edição (ou duas? - já não me lembro) da Volta na qual todo o pelotão, ciclistas e resto do staff das equipas e da organização dormiam em tendas de campanha cedidas pelo exército e que duas equipas de cozinheiros acompanharam a Volta para preparar as refeições para todos?

Não percam o livro.

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